quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

A BATALHA ESPIRITUAL!





Dom Quixote de La Mancha é um velho senhor que como talvez todos de sua época (1600-1615) apaixonado por romances de cavalaria e suas espalhafatosas façanhas. Criando um mundo novo e irreal em sua própria cabeça, nosso desengonçado herói parte em uma viagem em busca de seu troféu, sua amada Dulcineia. Começa a ver o seu rosto em tudo ao seu redor, as nuvens, o vento, o sol...por onde olhava lá estava ela. Suas batalhas são travadas com inimigos imaginários e que na verdade não existem ou como seu autor queria transmitir, com os INIMIGOS ERRADOS. Quando Dom Quixote ataca seus famosos moinhos de vento, a dura realidade lhe impropera as dores de um mundo diferente dos romances que para ele, eram de fato sua vida. Com isso não lhe resta opção, a não ser chegar à conclusão de que o mundo na verdade estava confuso, Dom Quixote nasceu um século mais tarde do que deveria para ser, como sonhara, um renomado cavaleiro andante.

TEXTO AUREO

“E Deus pelas mãos de Paulo fazia maravilhas extraordinárias. De sorte que até os lenços e aventais se levavam do seu corpo aos enfermos, e as enfermidades fugiam deles, e os espíritos malignos saíam. E alguns dos exorcistas judeus ambulantes tentavam invocar o nome do Senhor Jesus sobre os que tinham espíritos malignos, dizendo: Esconjuro-vos por Jesus a quem Paulo prega. E os que faziam isto eram sete filhos de Ceva, judeu, principal dos sacerdotes.
Respondendo, porém, o espírito maligno, disse: Conheço a Jesus, e bem sei quem é Paulo; mas vós quem sois? E, saltando neles o homem que tinha o espírito maligno, e assenhoreando-se de todos, pôde mais do que eles; de tal maneira que, nus e feridos, fugiram daquela casa.
E foi isto notório a todos os que habitavam em Éfeso, tanto judeus como gregos; e caiu temor sobre todos eles, e o nome do Senhor Jesus era engrandecido. E muitos dos que tinham crido vinham, confessando e publicando os seus feitos. Também muitos dos que seguiam artes mágicas trouxeram os seus livros, e os queimaram na presença de todos e, feita a conta do seu preço, acharam que montava a cinqüenta mil peças de prata. Assim a palavra do Senhor crescia poderosamente e prevalecia. Atos 19:11-20”

FAÇA GUERRA!

John Piper em uma de suas incríveis declarações, afirma que “a única atitude possível contra um desejo fora do controle é uma total declaração de GUERRA!”. Ele estava correto em dizer isto, pois longe de uma vida de paz e prosperidade o que almejamos nesta terra é uma vida de tribulações e intermináveis combates. Já disseram certa vez que fomos chamados para avançar um Reino, fomos chamados com um propósito intrínseco, assim como temos o de adoração, contemplação, temos também um chamado natural de combate. Não queremos paz em Sião. Certamente este reino não é construído por aqueles que descansam tranquilos em Sião, mas por aqueles que saem as ruas e lutam. Para apenas de vez em quando olharmos para cima com um sorriso e recuperar nossas forças que certamente se renovam em um ciclo eterno.

A BATALHA DE PAULO EM ÉFESO

Paulo esteve em Éfeso de cabeça raspada e pregou apenas aos judeus como de costume (At 17:2), assim como fez em quase todos os lugares em que esteve, discorria primeiramente nas sinagogas judaicas. O fez em Tessalônica, Beréia, Atenas, Corinto e finalmente em Éfeso onde esteve pregando pela primeira vez (At 18:19) antes de ter uma longa permanência (At 19). Os próprios Judeus pediram para que ele permanecesse ali mas partiu a confirmar todos os discípulos em todas as cidades em que pregou o evangelho. Paulo retorna a cidade que estava em seus projetos missionários uma vez que Éfeso era riquíssima além de portuária entre a parte oriental e ocidental do império Romano. Entre a partida de Paulo e seu retorno a cidade de Éfeso, esteve ali certo discípulo de nome Apolo, apesar de não ter grandes orientações sobre o ministério de Jesus, Tinha grande conhecimento nas escrituras (At 18:24), e conseguiu perceber pelo Espirito Santo que o Cristo prometido pelos profetas era Jesus o nazareno. Pregou ousadamente nas sinagogas dos Judeus e convenceu numerosos multidões de que Jesus era o Cristo (At 18:28).

Finalmente chega a Éfeso nosso herói, apostolo Paulo, não como Dom Quixote que viviam além da realidade. Paulo conhecia muito bem seus inimigos, sabia de suas estratégias, sabia de seus interesses. Muito mais que isso, chegou sabendo o que queria e como fazê-lo.

ONDE É O CAMPO DE BATALHA?

Antes que possamos avançar com o Reino de Deus aqui na terra, precisamos ter alguns conselhos de batalha. O Terreno onde avançaremos é uma terra alheia, perdida, vendida as suas próprias paixões. Ele tem um dominador, um comandante, ou como nossos Senhor Jesus nos informa, ela tem um príncipe (Jo 16:11). Este príncipe está furioso e tentará de todas as formas, aniquilar qualquer possibilidade de vitória.

TEMOS BONS SOLDADOS?

Paulo esteve pregando e ensinado em Éfeso por quase três anos, um tempo bastante prolongado se compararmos com suas passagens por outras cidades (At 17). O que é incrível de Paulo em Éfeso são os sinais que Paulo realizou naquele lugar. Paulo não era poderoso, não possuía dons de cura, dons do suor santo, ou qualquer maluquice que possamos imaginar. Os sinais que o Espirito Santo realizou em Éfeso, não foram feitos em nenhum lugar. Foi especialmente extraordinário o que aconteceu naquele lugar. Temos de aprender que o Espirito Santo não é uma energia, ou uma luz, ou uma força sobrenatural, mas a terceira pessoa da trindade com vontades, personalidade e sentimentos se é que podemos o descrever de forma tão minimalista. Aprendemos que Deus capacita seus soldados, e que quanto mais difícil à batalha mais poder receberemos para vencê-la. Paulo tinha uma grande batalha a frente...

QUEM É NOSSO INIMIGO?

Nosso inimigo tem de ser identificado, pois se não, corremos o risco de como Dom Quixote, lutarmos com o inimigo errado. Esta cidade que teve experiências tremendas da parte de Deus é a mesma que Paulo orienta em sua carta (Carta aos Efésios) para que sejam cheios do Espirito Santo, para que reconheçam que Deus é soberano e que escolheram eles e sua igreja antes da fundação do mundo e também informa para os efésios que seu inimigo não é a “carne ou sangue” mas principados e potestades e dominadores do ar. Portanto uma correta identificação do inimigo, possibilita que no preparemos de maneira adequada contra diferentes tipos de combate. Ninguém prepara um grande submarino para uma guerra no deserto!

ALISTAMENTO MILITAR

Neste exército, encontramos muitas semelhanças entre nosso sistema de defesa militar e o celeste. Temos batalhões, pelotões, recrutas (neófitos), Generais (Anciãos), e temos também o alistamento militar. Para participar deste seleto grupo, não é necessário ter grande carreira militar ou grandes experiências, ter um grande currículo, ter grandes qualificações. Na verdade neste recrutamento o próprio general, o maior de todos, aquele que comanda também os astros e as estrelas, nos dará a capacitação da qual precisamos. E o ponto alto deste alistamento é que só se pode entrar neste grupo aqueles que são chamados para isso. Recusar este chamado, assim como nosso sistema militar, gera multa, impedimentos e implicações terríveis.

O que nos parece no texto é que vendo este glorioso exército encabeçado por um dos maiores soldados de todos os tempos, alguns de fora, que não foram chamados, ou recrutados, se aventuraram a se autopromover, e partiram para guerra.

“E alguns dos exorcistas judeus ambulantes tentavam invocar o nome do Senhor Jesus sobre os que tinham espíritos malignos, dizendo: Esconjuro-vos por Jesus a quem Paulo prega. Atos 19:13”

Eles não foram chamados e/ou recrutados e mesmo assim partiram para o ataque. Não é assim que funciona. Nossos inimigos são astutos e vorazes. Não estão para brincadeira, e não perdem a oportunidade de triunfar em um flanco fragilizado.

“Respondendo, porém, o espírito maligno, disse: Conheço a Jesus, e bem sei quem é Paulo; mas vós quem sois? E, saltando neles o homem que tinha o espírito maligno, e assenhoreando-se de todos, pôde mais do que eles; de tal maneira que, nus e feridos, fugiram daquela casa. Atos 19:15-16”

Jesus já tinha os apóstolos e seus discípulos, e perceba que ele diz a eles que eles não eram ceifeiros. Se eles quisessem se tornar trabalhadores do reino, que orassem a Deus para que Ele os enviasse. Portanto, fazer parte do exército de Cristo necessita de recrutamento.

O CONFRONTO

Toda jogo tem regra e todos os caminhos tem atalhos. Você já ouviu falar de crime de guerra? Mas não parece irônico falar sobre “crime de guerra”, onde o princípio norteador da guerra é matar? Na verdade se usa este termo pois existem convenções e tratados mundiais assinados pelas nações que regulamentam limites para qualquer ação militar. Nós temos também este parâmetro que é a bíblia. A Bíblia deve nortear qualquer conflito espiritual. É extremamente relevante nossa reflexão pois em nossos dias, temos um conceito totalmente controverso do que é a batalha espiritual. Na verdade existem dois grandes polos entre os cristãos. Aqueles que subestimam a atuação de satanás, e com isso se perdem de ficar atentos as ciladas do inimigo (Ef 6:11). Há também o outro extremo que superestima os poderes do diabo. Acabam regressando a uma antiga heresia chamada de maniqueísmo, que cria dois “deuses”, um bem outro mal, de poderes iguais e que conflitam entre si numa batalha cósmica eterna. Não podemos cair em nenhuma destes extremos, mas reconhecer de maneira responsável a atuação de satanás.

Paulo foi corajoso, entrou em Éfeso, uma cidade paganizada, repleta de bruxaria, feitiçaria, idolatria... Com grande estratégia e altivez começa a enfrentar o sistema demoníaco que estava arraigado naquele lugar. Com grande autoridade discorria sobre os mistérios de Deus revelados em Jesus Cristo (Cl 1:26). Penetrando em todas as camadas da sociedade, todos os meios políticos, religiosos, culturais e sociais, Paulo enfrenta este inimigo poderosamente e Deus efetua grandes sinais e prodígios por seu intermédio.

“E, naquele mesmo tempo, houve um não pequeno alvoroço acerca do Caminho.
Porque um certo ourives da prata, por nome Demétrio, que fazia de prata nichos de Diana, dava não pouco lucro aos artífices, Aos quais, havendo-os ajuntado com os oficiais de obras semelhantes, disse: Senhores, vós bem sabeis que deste ofício temos a nossa prosperidade; E bem vedes e ouvis que não só em Éfeso, mas até quase em toda a Ásia, este Paulo tem convencido e afastado uma grande multidão, dizendo que não são deuses os que se fazem com as mãos. E não somente há o perigo de que a nossa profissão caia em descrédito, mas também de que o próprio templo da grande deusa Diana seja estimado em nada, vindo a ser destruída a majestade daquela que toda a Ásia e o mundo veneram. E, ouvindo-o, encheram-se de ira, e clamaram, dizendo: Grande é a Diana dos efésios. Atos 19:23-28”

“Mas quando conheceram que era judeu, todos unanimemente levantaram a voz, clamando por espaço de quase duas horas: Grande é a Diana dos efésios. Atos 19:34”

É preciso saber quem está por detrás de qualquer situação, senão corremos o risco de lutar contra a “carne e sangue” e combater moinhos de vento. Gritaram e clamaram por impressionantes duas horas seu clamor idolatro. Me parece a cena de filmes em que se enfileira o exército de um lado com seu general, o príncipe e dominador deste século, e de outro o exército celestial. O exército inimigo tenta bradar, espernear, grita agora com o intuito de amedrontar seu grande clamor demoníaco “grande é a Diana dos Efésios”. Com seu comandante montado em um cavalo branco o exército celestial para a batalha e de sua boca sai uma espada poderosa e com apenas uma palavra ele derrota todos inimigos.

TEM MEDO DE SE MOLHAR ENTÃO NÃO ENTRA NA ÁGUA!

Esta coragem está cada vez mais perdida no homem moderno. Dou como exemplo, a proibição de armas de brinquedos para as crianças. Não quero promover a violência e nem penso que a este via seja a mais equilibrada. Porém bastava que ensinássemos a nossas crianças de que lado deveriam ficar. Se eles fosses brincar de polícia e ladrão, deveriam ensinar que ficassem sempre do lado da polícia. Desta forma estão crescendo crianças que não se defendem, que vão virar pais omissos, maridos que não tem condição de defender sua casa. Penso que em breve poderemos saquear os lares pois não temos mais os valentes dentro da casa que precise ser amarrado. Criamos os “mariquinhas de Jesus”.

NOSSO ARMAMENTO

“E foi isto notório a todos os que habitavam em Éfeso, tanto judeus como gregos; e caiu temor sobre todos eles, e o nome do Senhor Jesus era engrandecido. E muitos dos que tinham crido vinham, confessando e publicando os seus feitos. Também muitos dos que seguiam artes mágicas trouxeram os seus livros, e os queimaram na presença de todos e, feita a conta do seu preço, acharam que montava a cinquenta mil peças de prata. Assim a palavra do Senhor crescia poderosamente e prevalecia. Atos 19:17-20”
Em meio a todo este caos, Paulo triunfa de seus inimigos que saíram derrotados e desposados diante do poder indestrutível e incomparável da proclamação do evangelho. Como lição precisamos enumerar algumas ferramentas que nos possam auxiliar quando estivermos frente ao inimigo no campo de batalha. O mesmo apostolo mais tarde escreveria “Porque as armas da nossa milícia não são carnais, mas sim poderosas em Deus para destruição das fortalezas; 2 Co 10:4”.  Poderíamos resumir nosso poderio de guerra em três elementos básicos: Oração; Santificação e Proclamação do Evangelho. Não precisamos apelar para nossa imaginação e começar a pensar em coisas carnais para destruir o poder das trevas, o velho “feijão com arroz” sem dúvida nenhuma é a arma mais potente contra o domínio do mal.

Precisamos nos despertar e nos apresentar e como o profeta dizer em alto e bom som “eis me aqui!”. Fomos revestidos de armadura espiritual poderosa e simplesmente negligenciamos o nosso chamado, fomos recrutados para o exército de Cristo e além de não querer estar na frente e combater o bom combate, ainda atrasamos o avanço das tropas, atrasamos o avanço do Reino de Deus. Quem fica inerte e de molho, enferruja a armadura da qual fomos revestidos....



PEDRO FERNANDES

terça-feira, 26 de novembro de 2013

NÃO QUERO CEAR, ESTOU DE BARRIGA CHEIA!




Dentro dos relatos romanos e pagãos sobre o cristianismo no primeiro século, o jovem governador imperial Plínio (61/62 Dc.) relata em uma carta que alguns cristãos foram levados a julgamento por um hábito semanal de “participar de alimentos”, mas que no final, para seu espanto e decepção, descobriu que era um hábito inofensivo. Isto se dá ao fato de que ele esperava um ritual “sinistro e macabro” dentre aqueles meios. Meados do século segundo, foi relatado de maneira sensacionalista e tendenciosa por Marco Fronto (100-166/176 Dc.) o seguinte:

A história da iniciação de seus (ou seja, dos cristãos) novatos (é) tão horrível como é bem sabido. Um bebê coberto de massa de farinha, para enganar o ingênuo, é colocado diante do iniciado em seus ritos. Ao ver a massa de farinha, o novato é encorajado a dar-lhe pancadas aparentemente inofensivas; e o bebê é morto pelas feridas não vistas e ocultas. Sedentos – oh! Que horror! – eles lambem o seu sangue, competem na divisão de seus membros, se unem em torno de sua vitima, se comprometem ao silencio mutuo em relação a cumplicidade no crime. Estes ritos são mais abomináveis do que qualquer sacrilégio.

Redescobrindo os pais da igreja – Dr. Michael A. G. Haykin – Editora Fiel (Ago. – 2012) – pg. 106.

Pelo numero de apologistas cristãos que combateram estes ensinamentos no segundo século, eles deveriam ser amplamente difundidos entre o povo, ironizando os ensinamentos sobre um suposto “canibalismo” retirado dos evangelhos: “Jesus, pois, lhes disse: Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Jo 6:53”

Neste contexto, por um lado mal interpretado e difamado, por outro totalmente desconhecido de propósitos, é que dois grandes teólogos da era patrística, fazem uma espécie de primeiro tratado sobre a Ceia do Senhor.

CIPRIANO DE CARTAGO

O primeiro é Cipriano, além de que foi Bispo no Norte da África (Cartago), pouco se sabe de sua vida a não ser que era homem de boa situação financeira e que abandonara tudo por uma vida de santidade. Anterior a era de Constantino, temos em Cipriano excelentes explanações e estudos a cerca da Santa Ceia. Seu primeiro escrito sobre a Ceia (carta 63) foi combatendo uma prática denominada como “Aquariana”, ou seja, ceavam com o uso de água ao invés de vinho misturado com água. Combatendo a ceia “aquariana” Cipriano infere que Jesus disse que “Eu sou a videira verdadeira”, logo, o Sangue de Cristo não se simboliza com água, mas vinho. Além disso, se vale de uma antiga versão latina do Salmo 23.5 onde se dizia: “Teu cálice, embora o mais excelente é intoxicante”. Ligando o texto a ceia, afirma que a água sozinha nunca causaria inebriação. Cipriano defende que a leve embriaguez da ceia (diferente da embriaguez do mundo que causa apenas insobriedade), causa uma sobriedade que restaura corações à sabedoria celestial, depois de provar as experiências desta era. Sobre a mistura de água com vinho, defendia que a água é o como o povo de Deus, o vinho naturalmente como o sangue de Cristo. Portanto, o povo de Deus está em uma união indissolúvel com Cristo e em completa comunhão entre eles. Por fim podemos dizer que Cipriano, segundo PT Forsyth , (1848 — 1921), foi o principal culpado por tornar a Ceia que deveria ser um Sacrifício de Louvor, por um sacrifício propiciatório realizado apenas pelo sacerdote (chama bispo e presbíteros de sacerdote, imitando a Jesus como tal), o que analisaremos mais tarde suas implicações.

AMBROSIO DE MILÃO

Assim como Cipriano, Ambrósio também era um aristocrata, e governador de uma província antes de ser designado como bispo em Milão. Antes mesmo de ter conhecimento teológico e nem mesmo ser batizado, foi posto bispo em caráter de um cargo que já naquela época (374) era altamente político. Foi fortemente influenciado pela pregação alegórica de Orígenes de Alexandria (185-254), o que fez com que um jovem rapaz ficasse intrigado por suas pregações, e mais tarde se converteria ao Cristianismo, conhecemos este jovem hoje como St. Agostinho de Hipona (354-430), um dos maiores teólogos de todos os tempos. Agostinho nos chama atenção em alguns relatos ao comentar que Ambrósio escreveu seu primeiro tratado teológico sobre a virgindade e celibato, além de introduzir cantos congregacionais no culto público. Ambrósio assim como Cipriano, via no antigo testamento, inúmeras predições da ceia: A embriaguez de Noé; a oferta de pão e vinho a Melquisedeque ofertada por Abraão; a mulher Sabedoria em Provérbios 9; A benção de Judá...Mas o âmago do pensamento de Ambrósio sobre a Ceia, foi sobre o que conhecemos hoje como o conceito de transubstanciação dos elementos, em nossos dias, apenas os católicos romanos ainda acreditam na transubstanciação. Como dito, esta posição se deu, fortemente influenciada pela interpretação alegórica dos textos bíblicos. Apesar da confusão sobre os elementos, Ambrósio trouxe a congregação uma reverencia a este sacramento como nunca antes fora experimentado, o que nos leva ao próximo passo deste estudo que é ver como interpretamos hoje os elementos da ceia.

OS ELEMENTOS

Podemos de maneira resumida dizer que existem quatro interpretações sobre os elementos da ceia:

·         Transubstanciação;
·         Consubstanciação;
·         Memorial ou Realista;
·         Virtualismo ou União Espiritual;

Faremos agora um rápido estudo sobre cada um deles e suas implicações.

1.       TRANSUBSTANCIAÇÃO

A transubstanciação como apresentado, foi primeiramente defendida por Ambrósio de Milão ou pouco provavelmente por Inácio de Antioquia. Esta visão defendida hoje apenas pela Igreja Católica Romana, acredita que após o sacerdote (sacerdos, como inaugurou Cipriano) consagrar os elementos eles passam LITERALMENTE a ser o corpo e o sangue de Cristo, muda-se as substancias e não os seus acidentes. Desta forma todas as vezes que se realiza a eucaristia, repete-se o sacrifício de Jesus pelo seu povo. Com isso é fácil entender porque padres com o intuito de que os leigos tenham maior compreensão sobre o “mistério” da ceia, pedem que não se mastigue a hóstia após ser consagrada, pois se trata literalmente do próprio corpo de Cristo.

Implicações

Um dos maiores agravantes é que se repete em toda missa, o sacrifício pascoal de Jesus, o que contraria inúmeros textos do NT onde se diz que Jesus se sacrificou uma vez por todas pelos escolhidos de Deus (Rm 6.9-10; Hb 7.27; 9.12, 26, 28; 10.10; 1Pe 3.18). Assim como o escritor de Hebreus nos ensina, o sangue de bodes e de touros não podem pagar pecados (Hb 10:4). Todos os anos o sacerdote sacrificava um animal pelo mesmo propósito (Hb 10:1), de forma que o pecado até fazia aniversário (Hb 10:3), porém, Jesus de uma única vez se deu por oferta ao pecado (Hb 10:18), de maneira que repetir este sacrifício é quase dizer que o que já foi realizado é ineficaz ou insuficiente e iguala o sangue de Jesus ao sangue de touros e bodes.

A transubstanciação contradiz a ciência e a lógica pois é impossível mudar a substancia sem mudar os seus acidentes, além disto parece contrariar a interpretação do texto do evangelho de João onde se diz:

“Jesus, pois, lhes disse: Na verdade, na verdade vos digo que, se não COMERDES A CARNE DO FILHO DO HOMEM, E NÃO BEBERDES O SEU SANGUE, NÃO TEREIS VIDA EM VÓS MESMOS. Jo 6:53”

Em forte combate a transubstanciação romana o catecismo de Heidelberg no traz preciosos argumentos:

CATECISMO DE HEIDELBERG - DOMINGO 30
Pergunta 80: Que diferença há entre a Ceia do Senhor e a missa do papa?

REPOSTA. A Ceia do Senhor nos testemunha que temos completo perdão de todos os nossos pecados, pelo único sacrifício de Jesus Cristo, que ele mesmo, uma única vez realizou na cruz; também que pelo Espirito Santo, somos incorporados a Cristo que, agora, com seu verdadeiro corpo, não está na terra, mas no céu, à direita do Pai e lá que ser adorado por nós.

A missa, porém, ensina que Cristo deve ser sacrificado todo dia pelos sacerdotes, em favor dos vivos e dos mortos, e que esses, sem a missa, não tem perdão dos pecados pelo sofrimento de Cristo; Também, que Cristo está corporalmente presente sob a forma de pão e vinho e, por isso, neles deve ser adorado.

A missa, então, no fundo, não é outra coisa senão a negação do único sacrifício de sofrimentos de Cristo e uma idolatria abominável.

Mt 26:28; Lc 22:19.20; Jo 19:30; Hb 7:26-27; Hb 9:12; Hb 10:10-14; 1Co 6:17; 1Co 10:16-16; Jo 20:17; Cl 3:1; Hb 1:3; Hb 8:1-2; At 7:55-56; Fp 3:20; Cl 3:1 1 Ts 1:10; Hb 9:26; Hb 10:12-14.

Os Judeus estavam escandalizados com a afirmação de Jesus, e pensaram que ele queria discípulos antropófagos. Na Verdade foi uma tremenda confusão causada por uma interpretação literal das palavras de Jesus, o que parece ser exatamente o mesmo erro dos que creem na transubstanciação.

2.       CONSUBSTANCIAÇÃO

Esta é a irmã gêmea da transubstanciação e defende que não existe uma transformação dos elementos, mas uma união das substancias de Cristo com as substancias dos elementos. Desta forma, o pão permanece pão, mas juntamente com as substancias de Cristo. Talvez o primeiro a defender esta tese foi Berengario de Tours (1000-1088), mas quem ficou conhecido como precursor desta posição foi Martinho Lutero (1483-1546). Lutero para defender sua crença, se valia da ubiquidade do corpo de Cristo, ou que chamamos de onipresença. Assim, Jesus podia estar assentado a destra de Deus pai nas regiões celestiais com um corpo glorificado, e também presente na eucaristia ou em qualquer lugar. Novamente temos as mesmas implicações cientificas e teológicas sobre o tema já apresentado sobre sua irmã gêmea, apenas com algumas ressalvas, pois Lutero entendia o problema da repetição do sacrifício e não o aceitava, porém não via outra possibilidade de ver João 6:53 se não de forma literal.

3.       MEMORIAL

Esta é terceira forma de enxergar a Ceia, e está à frente um dos grandes nomes da reforma protestante do sec. XVI, o suíço Ulrico Zuínglio (1484-1531). Zuínglio combateu fortemente a visão de Lutero e afirmava que a Ceia era apenas uma ordenança e que as palavras de Jesus quanto a “Eu sou o pão da vida” deveriam ser vistas como metáforas. Defendia que de maneira nenhuma Cristo se faz presente nos elementos e que a virtude do sacramento está no fato de o crente fazer recordação do sacrifício vicário de Cristo e que através deste memorial o crente é transformado e abençoado.

Temos em Zuínglio grande contribuição para uma correta administração deste sacramento, além de que, se harmoniza com as palavras de Jesus “Fazei isso, em memória de mim”. (1Co 11.23-25).

4.       VIRTUALISMO

Naturalmente prefiro nossa quarta interpretação sobre os elementos da ceia (pão e vinho), que é de João Calvino (1509-1564). Calvino diz que a presença de Jesus é apenas espiritual e que está visivelmente presente, sendo exibido nos elementos. Desta forma, quem participa da Ceia, se alimente espiritualmente de nosso Senhor. É evidente que quando dizemos que Jesus está presente espiritualmente nos elementos, não significa que os elementos tenham alguma espécie de “poder” ou que se um descrente participar da ceia, poderá através deste “poder” ser restituído ou abençoado. Na verdade como o apostolo Paulo nos diz, quem participa da ceia indignamente bebe juízo a si mesmo (1 Co 11:28-29). Portanto, a eficácia da participação da ceia para o crente está intimamente ligada a atuação do Espirito Santo que distribui as bênçãos e faz a ministração da verdadeira participação espiritual do corpo e do sangue de Jesus Cristo. Em outras palavras, quando Jesus diz que “Eu sou o pão da vida” é uma metonímia, apenas uma figura de linguagem, porém alcançamos alimento espiritual de fato, alcançando Cristo mediado pelo Santo Espirito.

A confissão de fé de Westminster adotou esta interpretação assim como as igrejas reformadas em geral. Veja o Breve Catecismo de Westminster:
               
PERGUNTA 96. O que é a Ceia do Senhor?

R. A Ceia do Senhor é o sacramento no qual, dando-se e recebendo-se pão e vinho, conforme a instituição de Cristo, se anuncia a sua morte, e aqueles que participam dignamente tornam-se, não de uma maneira corporal e carnal, mas pela fé, participantes do seu corpo e do seu sangue, com todas as suas bênçãos para o seu alimento espiritual e crescimento em graça.

Ref. 1Co 11.23-26; At 3.21; 1Co 10.16.

Calvino entendia que devido nossa ignorância, Deus se “acomoda a nossa capacidade”. Como uma mãe que limita e reduz sua linguagem quando quer ensinar seu filho a falar. Nesta analogia, é como se Deus através da ceia, de maneira didática e compreensível, nos traz a luz ensinamentos e bênçãos riquíssimas para nossa caminhada cristã.

A PASCOA

Dado todos os tipos de interpretação de ceia na história, veremos no AT suas predições e simbolismos, começando pela pascoa. Hoje quando se fala em Páscoa se lembra sempre em ovos de chocolate e coelhos. Isso se deve a um ritual pagão que tinha a  lebre e não o coelho, como símbolo da deusa Gefjun. Suas sacerdotisas eram ditas capazes de prever o futuro observando as entranhas de uma lebre sacrificada. A versão “coelhinho da páscoa, que trazes pra mim?” é comercialmente mais interessante do que “Lebre de Eostre, o que suas entranhas trazem de sorte para mim?”, que é a versão original desta rima.

A Pascoa na verdade é a festa judaica mais antiga que temos relato. Foi instituída logo antes de Israel ser liberto da escravidão no Egito (Ex 12) juntamente com o seu calendário. A origem da palavra Pascoa (do hebraico Pessach), significa “passagem” (do grego Πάσχα). Esta passagem, pode significar duas coisas, (1°) a “passagem” do povo pelo mar vermelho em fuga do Egito ou (2°) a passagem do anjo da morte como a 10° praga de Deus contra o povo egípcio. Vejo na segunda posição mais naturalidade textual (Ex 12) pois é exatamente “através” da passagem do anjo ferindo mortalmente os primogênitos, que Moisés consegue libertar seu povo e institui-se a pascoa como celebração.

A pascoa era separada em duas etapas:

1)      14° dia do primeiro mês (Abide ou Nisã (Ne 2:1; Et 3:7): Março-Abril) do ano:

Comer às pressas um cordeiro assado com ervas amargas, acompanhado ao final de vinho (cada pessoa devia tomar quatro cálices de vinho); O simbolismo em comer às pressas, está na maneira como Israel saiu do Egito, as ervas amargas, o sofrimento de Cristo (Lm 3:16), e o sangue cordeiro, foi a oferta substitutiva para salvação do povo, quando Deus os livrara do anjo da morte (Ex 11). Após o banquete, os participantes deveriam se vestir como se fossem viajar, lembrando o êxodo de Israel.

2)      15° ao 21° dia do mesmo mês:

O banquete servido com pães Asmos virou obrigação em Israel, todos participavam do banquete, ainda que através da contribuição dos cofres públicos para a participação de famílias mais carentes. Os pães Asmos também está relacionado com a libertação de Israel às pressas do Egito. Naquela época não se havia fermento com facilidade, deste modo, se fazia uma massa levedada de uma dia para outro para que após a mistura, a massa viesse a crescer. Pão Asmo, portanto, é pão sem fermento, não como conhecemos hoje, mas quer dizer que não podiam esperar todo o tempo necessário para esperar se fazer o fermento, que se fazia de um dia para o outro.

OS PÃES DA PROPOSIÇÃO

Com o simbolismo da Páscoa, que prefigura o sacrifício de Jesus Cristo como cordeiro substituto dado por libação por nossos pecados, precisamos agora entender o que significa os pães da proposição.

“Também tomarás da flor de farinha e dela cozerás doze pães, cada um dos quais será de duas dizimas de um efa. E os porás em duas fileiras, seis em cada fileira, sobre a mesa de ouro puro, perante o Senhor. Sobre cada fileira porás incenso puro, que será, para o pão como porção memorial é oferta queimada ao Senhor. Em cada sábado, Arão vos porás em ordem perante o Senhor, E continuamente, da parte dos filhos de Israel, por aliança perpétua. Lv 24:5-9.”

Qual local eles estavam? A quantidade dos Pães? De onde vinham? Quem os comia? Como eram arrumados sobre a mesa? O que simbolizavam?

Os pães eram os sacerdotes quem os fazia. Vemos que Arão colocava em uma mesa banhada a ouro (não era de ouro maciço pela mobilidade do tabernáculo), doze pães enfileirados, dividido em dois grupos de seis. Para quem pensava que os pães da proposição representava Jesus, porém, pela quantidade (doze) vemos claramente um simbolismo entre as doze tribos de Israel, ou seja, os pães representavam o povo de Deus. O sacerdote traziam os pães à presença do Senhor, mas diz o texto que eles eram oferecidos da parte do filhos de Israel (v. 8). O sacerdote montava a mesa, com um grande banquete mas ninguém participava. Podemos inferir que os pães representavam aqueles que não podiam estar presentes naquele local, pois existia um “véu” que separava o santo lugar do “santo dos santos”, onde mais tarde Jesus garantiria nosso acesso (Mt 27:51). Portanto, o povo de Deus estava ali representado pelos pães.

O VEU FOI RASGADO!

Por consequência nos vem as indagações: o véu foi rasgado com qual propósito? para o povo de Israel que era totalmente proibido este acesso, se fosse permitido o que eles fariam? Hoje que temos acesso ao “santo dos santos”, o que mudou em nossas vidas?

O que mudou hoje que temos acesso ao “santo dos santos”, é que podemos participar deste banquete que estava anteriormente proibido ao povo de Deus (pães da proposição e a pascoa), o que nos traz a uma comunhão com o Criador através de Seu santo filho Jesus. Estamos no “santo dos santos” sempre que participamos da Santa Ceia hoje, de forma que temos comunhão com Jesus e o povo de Deus através de seu corpo e sangue (pão e vinho). Com este novo paradigma, podemos compreender melhor agora a Ceia realizada por Jesus.

A SANTA CEIA

No evangelho de Lucas, Jesus encaminha Pedro e João para fazer os preparativos para a pascoa (Lc 22:7). Importava que a ceia fosse realizada neste dia (14° dia do primeiro mês - Abide ou Nisã - Ne 2:1; Et 3:7) pois Jesus cumpriria duas simbologias ao mesmo tempo: 1) Assumiria o lugar do cordeiro pascoal (Jo 1:29,36; 1Co 5:7; 1Pe 1:18-19; Ap 5:6,9-12; 12:11) e 2) cumpriria a ceia dos pães da proposição o que antes estava restrito ao povo. Ao passo que através de seu corpo e sangue (pão e vinho), tomamos posse pela fé, de tais bênçãos como o poder propiciatório do sangue do redentor (Páscoa) e entramos no “santo dos santos” em comunhão com nosso Salvador (comendo os Pães da Proposição). Em outras palavras “entramos no santos dos santos, encontramos com Jesus sentado à mesa com 12 pães postos em meio a um banquete, tiramos os doze pães que nos guardavam lugar, e comemos com Ele esta ceia todas as vezes que participamos do pão e do vinho hoje, e o faremos até que Ele retorne em glória!”.

Israel ansiou por tempos participar da ceia (Pães da Proposição) e não podiam... O sacerdote serviam os pães e montavam os banquetes, porém em algum tempo os pães eram retirados e colocado pães frescos e ninguém os tocava. O próprio Rei Davi ao pedir comida ao sacerdote, acaba comendo os pães da proposição, mas comeu aqueles que já não estavam mais na presença do Senhor (1Sm 21:6). Fica mais evidente as palavras de Jesus “tenho desejado ansiosamente comer está Pascoa convosco (Lc 22:15)”. Durante a ceia é possível imaginar a preocupação do apostolo Pedro vendo Jesus pegando nos pães à mesa e pensando “será se Ele não sabe que não se pode tocar?”. E o mais impressionante é que além dEle “tocar” o pão, diz o texto que “tendo dado graças, partiu o pão e lhes deu (...)” Pedro deva ter ficado louco pensando “não bastava tocar, o que já era terrível, agora quer que comamos?” Neste ponto podemos dizer que a ceia, como popularizou o teólogo alemão Wolfhart Pannenberg, um evento proléptico, isto é, que mostra hoje ainda que limitado, o que será amanhã de maneira plena. Podemos dizer com isso que, Jesus na realização da ceia, cumpriu a Páscoa e os Pães da Proposição, mas que ainda hoje, a ceia está prefigurando o grande banquete que participaremos todos juntos nos novos céus e na nova terra. Maranata!


PEDRO FERNANDES

sábado, 26 de outubro de 2013

A BIBLIOTECA DE DEUS




Todos os homens em todas as épocas sempre tiveram consciência de pecados ou consciência moral inerente a seus atos. Talvez uma das primeiras compilações em forma de livro, foram dos egípcios. Quando alguém morria no Egito antigo, era feito um ritual de mumificação e junto com a múmia no sarcófago, eles deixavam uma espécie de cópia de um livro que segundo a crença serviria de guia espiritual contra alguns problemas que enfrentariam após a morte. Este livro ficou mundialmente conhecido como “livro dos mortos” e seu objetivo era que o candidato fosse guiado no caminho do além. Era comum a crença que diante da deusa Maat não valeria riqueza ou posição social, mas como esta pessoa se comportou ou o que praticou em sua vida. Podemos dizer que não comungavam da “justificação pela fé, sem as obras da lei (Rom 3:28)”, daí a importância deste livro para o povo. O que nos chama a atenção é a similaridade com a fé cristã, pois também temos um livro, que também serve como guia espiritual. Aqueles que foram escritos neste livro, não perecem, mas vivem para sempre (Ap 3:5). Falamos é claro no livro da vida, que tem causado muita polemica e debates ao longo dos séculos. Meu intuito portanto, não é fomentar a discussão, antes sistematizar nossa crença.

Sobre o livro da vida (Ap 20:15) temos um enorme número de teorias e explicações, a maioria especulativa, e em sua maioria, não satisfazem a quem questiona tanto de um lado como de outro. Afinal, que livro é este? Quando foi escrito? Existem mais deles? Ainda está sendo modificado? Como faço para colocar meu nome nele?

Todos nós conhecemos um dos jargões gospel mais famosos dentro da igreja moderna:

“Escreve Senhor meu nome no livro da vida nesta noite...”

“Eu creio que meu nome está sendo escrito agora pela fé, pois o que eu ligo na terra está sendo ligado nos céus...”

Precisamos com discernimento e subordinados a palavra de Deus, avaliar as passagens bíblicas a este respeito para que possamos compreender um pouco mais sobre este complicado assunto que sem dúvida alguma, entra em conflito com qualquer visão teológica e ampara implicações soteriológicas.

Comecemos falando sobre a diversidade de “livros” citados na bíblia para que possamos avaliar em qual categoria nosso estudo irá pairar. A medida que a narração bíblica vai evoluindo parece que dependendo do contexto que o autor quer anunciar, ele se vale de alguns livros como exemplo, senão vejamos:

LIVRO DOS VIVOS

“Sejam riscados do livro dos vivos, e não sejam inscritos com os justos. (Sl 69:28)”

O salmo faz distinção entre os que estão vivos e os que estão mortos, e que Deus possui um livro com estes dados. Como um registro civil que constassem todos que vivem dentro de uma cidade e quando morrem, são riscados deste livro. No salmo não aparece de forma literal, mas simbolicamente. Este livro é metafórico portanto.

LIVRO DA HISTÓRIA – (Sl 139:16)

“Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe; e no teu livro todas estas coisas foram escritas; as quais em continuação foram formadas, quando nem ainda uma delas havia. (Sl 139:16)”

Este livro se resume ao argumento comprobatório sobre onisciência de Deus ao rumo dos acontecimentos. O salmista em um contexto onde Deus sonda tudo e todos, conhece a mente e os corações (Sl 139:2), conhecendo tudo o que existe ou vai existir, apela ao fato que todos estes acontecimentos estão registrados em um livro. Tudo já está previamente estabelecido por Deus, Ele não apenas conhece o futuro, mas também o determina.

LIVRO DAS CRÔNICAS - (2 Rs 15:31)

“Ora, o mais dos atos de Peca, e tudo quanto fez, eis que está escrito no livro das crônicas dos reis de Israel. (2 Rs 15:31)”

Parece muito provável que Israel tenha produzido ao longo de sua história diversas literaturas comuns ao conhecimento do povo, tão comum e útil a compreensão, que diversos autores bíblicos fazem referências destes escritos que certamente o leitor daquela época estaria bem situado. O “livro das Crônicas dos Reis de Israel” citado inúmeras vezes no AT trazia uma parte dos reinados em Israel e suas implicações históricas, além de possivelmente ser um livro oficial e de posse hereditária (2 Rs 15:11; 2 Rs 15:15; 2 Rs 1:18; 2 Rs 15:31; 2 Rs 15:21;2 Rs 15:26;1 Rs 16:14;1 Rs 16:20;1 Rs 15:31;2 Rs 12:19;1 Rs 16:5;2 Rs 10:34;2 Rs 14:15;1 Rs 14:19;2 Rs 13:8; 1 Rs 16:27;2 Rs 14:18;2 Rs 15:36;2 Rs 23:28;2 Rs 14:28; 2 Rs 21:25;2 Rs 13:12;1 Rs 14:29;2 Rs 15:6;2 Rs 24:5;1 Rs 22:39; 2 Rs 16:19;2 Cr 20:34; 1 Rs 22:46;2 Rs 21:17;2 Rs 8:23;1 Rs 15:7;2 Cr 25:26;2 Rs 20:20;2 Cr 35:27;1 Rs 15:23;Es 10:2;Ne 12:23; 1 Cr 9:1; 2 Cr 32:32; 2 Cr 28:26; 2 Cr 27:7; 2 Cr 16:11; Es 6:1; 2 Cr 33:18...).

Além dos “livro das Crônicas dos Reis de Israel”, temos vários livros que a bíblia cita que não temos fonte muito menos acesso, mas que foram escritos em Israel e que certamente o povo se valia destes livros.

a)      Provérbios e Cânticos de Salomão: (1Rs 4:32-33);
b)      Livro dos Atos de Salomão (1Rs 11:41);
c)       Livro do Justo (Js 10:13);
d)      Livro dos Reis (2Cr 24:27);
e)      Anais dos Reis de Israel (2Cr 33:18);
f)       Comentários de Jeú, filho de Hanani (2Cr 20:34);
g)      A História de Osias, por Isaías, filho de Amós, o profeta (2Cr 26:22);
h)      Palavras de Hozai (2Cr 33:19);
i)        Livros dos Medos e dos Persas (Et 10:1-2);
j)        Livro das guerras do Senhor (Nm 21:14);
k)      Livro do Profeta Natã (2Cr 9:29);
l)        Livro de Samuel, o Vidente (1Cr 29:29);
m)    Livro de Aías, o Silonita (2Cr 9:29);
n)      Livro de Ado, o Vidente (2Cr 9:29; 2Cr 12:15; 2Cr 13:22);
o)      Livros de Semaias, o profeta (2Cr 12:15);
p)      Livro das Crônicas dos Reis de Israel (1Rs 14:19);
q)      Livro das Crônicas dos Reis de Judá (1Rs 14:29);
r)       Livro de 1° Enoque (Jd 1:14);
s)       Livro da Ascensão de Moisés (Jd1:9).

LIVRO DA LEI DE DEUS E LIVRO DA LEI DE MOISÉS– (Gl 3:10; Js 23:6)

Aqui é importante uma reflexão pois os adventistas sustentam que estes dois livros, quando registrados na bíblia, não são como sinônimos, mas realmente como livros separados, sendo um “livro da lei de Deus” e outro “livro da lei de Moisés”. Com uma interpretação alegórica sustentam que, dentro da arca da aliança continham as palavras com a lei de Deus (Decálogo) e fora da arca, a parte, existia um livro batizado de “livro da lei de Moisés” (Dt 31-24-26) que prescrevia as leis cerimoniais que deveriam mais tarde ser abolidas pois, foram de antemão figurativas. É evidente aqui um esforço sobre-humano para espremer da bíblia o que não é sua intenção, apenas para determinar leis continuístas e descontinuadas. Na verdade estas duas terminações são referências a lei de Deus (Ex 20; Dt 5). Temos inclusive o momento exato em que Moisés compele tudo o que recebera em apenas um livro, o que nos prova sua unicidade:

“E aconteceu que, acabando Moisés de escrever num livro, todas as palavras desta lei,
Deu ordem aos levitas, que levavam a arca da aliança do Senhor, dizendo:

Tomai este livro da lei, e ponde-o ao lado da arca da aliança do Senhor vosso Deus, para que ali esteja por testemunha contra ti. (Dt 31:24-26)”

Apesar do “livro da lei de Moisés” estar ao lado da arca da aliança, e o decálogo dentro da arca, seu conteúdo é nada mais que as próprias palavras recebidas por Moisés no Sinai (Ex 19). Em outra parte Moisés o chama de livro da aliança (Ex 24:7), e que claramente apesar de outro titulo, ainda se refere a um único livro intitulado de várias maneiras.

LIVRO DA PROFECIA - (Ez 2:9)

“Então vi, e eis que uma mão se estendia para mim, e eis que nela havia um rolo de livro. (Ez 2:9)”

Os profetas eram pessoas levantadas e capacitadas por Deus para admoestar, edificar e exortar seu povo. De forma que estes profetas eram ferramentas, todas as coisas provinham de Deus. Naturalmente o conteúdo de sua mensagem que hoje conhecemos uma parte ou o suficiente para que creiamos, eram recebidos por visões (At 10:10), teofanias (Ex 3:2), escutando a voz de Deus (1 Sm 3:4-10), sonhos (Jl2:28), etc...

Neste texto, Ezequiel recebe esta profecia para ser proferida ao povo (casa rebelde), como uma espécie de visão de um livro, que claramente neste, estavam contidas a mensagem que Ezequiel deveria trazer da parte de Deus (Ez 2:7).

O LIVRO COM SETE SELOS É O LIVRO DA VIDA?

Fazemos esta pergunta, pois muito já foi dito a este respeito, mas a verdade é que pouco se sabe a respeito deste misterioso livro. Temos grande inclinação a acreditar que este livro que começa a ser descrito com mais clareza na bíblia em Apocalipse 5, não é o mesmo que o “livro da Vida” ou “Livro do Cordeiro”. Seu conteúdo é um mistério, o Instituto Moody de Chicago, em seu comentário sobre apocalipse comenta:

“O livro mesmo jamais é aberto. Isto, é claro, leva a muitas sugestões quanto ao conteúdo do livro. Simcox diz, certamente errando, que é o Livro da Vida. Irineu (pai da igreja) insiste que continha "as coisas de Cristo". Swete tem segurança ao dizer que o seu conteúdo abrange o futuro desconhecido, e assim ele o intitula de "o livro do destino". Milligan diz que contém "todo o conselho de Deus”. Comentário Bíblico Moody”

Como dito é um mistério seu conteúdo. O apóstolo João escreve esta revelação com o intuito de consolar e edificar a igreja de Cristo em todos os tempos, mas ainda que revelado, continuamos com vários mistérios que conheceremos apenas na Glória.

LIVRO DO CORDEIRO OU LIVRO DA VIDA

Este livro com certeza é o mais conhecido dentre os outros, também em proporção, o mais mal interpretado. Temos menção deste livro apenas no novo testamento, uma vez que, como já visto, os outros livros do AT referenciam outros aspectos. Ele aparece no AT apenas com o profeta Daniel em suas profecias (Dn 7:10; Dn 12:1). Este livro aludi a salvação do indivíduo. Se alguém tem seu nome escrito no livro da vida, então será salvo (Ap 20:15). Em outras palavras, “Se tiver seu nome escrito no livro da vida então significa que Jesus o resgatou na cruz (Cl 2:14), e de maneira nenhuma será condenado (Jo 6:37) ou perderá sua parte no Reino Eterno.”

Ademais veremos alguns aspectos para que compreendamos um pouco mais sobre o “Livro do Cordeiro” ou “livro da Vida”.

a)      Quando foi escrito?

“E adoraram-na todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo. (Ap 13:8)”

Agora foi a vez dos pentecostais que observei em suas argumentações em favor do sinergismo, que sugerem a observação do texto original para percebermos que no texto de Ap 13:8 onde se diz “desde a fundação do mundo” no original se vale de:

Pro katabólês kosmon” – (desde a fundação do mundo - προ καταβολης κοσμου)

O que é diferente de:

antes da fundação do mundo” como sugerimos.

Em outras palavras eles afirmam que, “desde a fundação do mundo este livro vem sendo escrito”.

Estamos frontalmente contra esta posição que se vale de uso de traduções como fontes primárias, sem pesquisas etimológicas ou de qualquer outro gênero cientifico. Verifique que este argumento é facilmente combatido. Para uma rápida apologética, analisaremos que o texto traduzido em Ef 1:4 é utilizado o mesmo termo que em Ap 13:8. Veja o texto:

“Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo; (Ef 1:4)”

“καθως εξελεξατο ημας εν αυτω προ καταβολης κοσμου; (Ef 1:4)”

Não resta dúvida que este livro foi escrito e selado antes da fundação do mundo e que nada pode ser alterado e/acrescentado a este livro, pois Deus nos predestinou em amor, antes da fundação do mundo.

b)      Posso ser riscado do Livro da Vida?

Em segundo momento, apresentam a doutrina de que um Cristão regenerado e justificado pode um dia, em virtude de seus atos, perder a sua salvação e ter o nome riscado do livro da vida. O principal texto para esta argumentação é Ex 32:32-33 onde Moisés tipificando a propiciação de Cristo, pede a Deus para que brande sua ira contra o povo, o que é inútil, pois apenas Jesus teria méritos suficientes:

“Agora, pois, perdoa o seu pecado; se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito.
Então disse o Senhor a Moisés: Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro. (Êx 32:32-33)”

Como já foi visto neste estudo, facilmente comprovamos que existiam inúmeros livros no AT. Os reis da antiguidade possuíam um livro com o registro de todos os cidadãos de seu reino. De forma que quando morriam, tinham seu nome riscado do livro do reino. Deus aparentemente possuía um livro parecido que prefigurava o livro do cordeiro que conhecemos.  No livro dos vivos, as pessoas quando morriam eram riscados, pois perdiam a vida, e só poderiam ficar os vivos registrados neste livro. Vemos que todo este sistema aponta para Jesus, que somente em Cristo recebemos a promessa da vida (2Tm 1:1), pois ele é o Pão da Vida (Jo 6:48) e Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens (Jo 1:4):

“Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus, segundo a promessa da vida que está em Cristo Jesus, 2 Tm 1:1”

Afinal, servimos o Deus de vivos, não de mortos, pois todos que receberam vida através do Cordeiro que tira o pecado do mundo (Jo 1:29), não é riscado do livro dos vivos (Ex 32:32-33):

“Ora, Deus não é Deus de mortos, mas de vivos; porque para ele vivem todos. Lc 20:38”

Concordo com Jonh MacArthut Jr. que iluminado comenta:

“Êxodo 32:33, alguns argumentam, apóia a idéia que Deus pode remover o nome de alguém do Livro da Vida. Nessa passagem, o Senhor diz a Moisés que “aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro”. Não há contradição, contudo, entre essa passagem e a promessa de Cristo em Apocalipse 3:5. O livro mencionado em Êxodo 32:33 não é o Livro da Vida descrito em Filipenses 4:3, e mais tarde em Apocalipse (13:8; 17:8; 20:12, 15; 21:27). Pelo contrário, refere-se ao livro dos vivos, o registro daqueles que estão vivos (cf. Sl. 69:282). A ameaça, então, não é a condenação eterna, mas a morte física.”

Artigo: Riscar o Nome do Livro da Vida?
Autor: John MacArthur, Jr.
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto1

c)       O Tribunal de Cristo

“E vi os mortos, grandes e pequenos, que estavam diante de Deus, e abriram-se os livros; e abriu-se outro livro, que é o da vida. E os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras. Ap 20:12”

A grande discussão em torno deste Livro se dá em razão a sua importância e utilização. Como vimos no texto acima, no Dia do Juizo Final, o Livro da Vida terá fundamental importância para o julgamento de todos. O texto parece apresentar um julgamento baseado em nossas obras, destruindo aqui, o pilar de nossa fé, de que somos salvo pela graça (Ef 2:8-10). Este interpretação se parece mais com o julgamento da deusa Maat, apresentado no começo do texto. Porém ao analisarmos o texto, veremos que não se trata de “justificação pelas obras” ou coisa parecida, mas vários livros descritos, não somente o Livro da Vida.

Diz o Texto:

“e abriram-se os livros; e abriu-se outro livro, que é o da vida. Ap 20:12a”

Vimos aqui, dois tipos de livro, “livros” com nossas obras, e por fim o “Livro da Vida”.

“E os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras. Ap 20:12b”

Temos aqui salvação pelas obras? Evidente que não! Verifique que não esta sendo discutido salvação no texto, pois não se trata do Livro da Vida, que compete a salvação, mas dos “Livros” que contem nossas obras, que será neste grande Dia, julgado nosso GALARDÃO.

Quanto à salvação (Livro da Vida), temos este julgamento apenas no v. 15:

“E aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo. Ap 20:15”

Com o exposto sobre todos os Livros e sua natureza, vimos à quantidade de livros e o quanto devemos estar atento para uma melhor compreensão das escrituras sagradas. Assim como o “livro dos Mortos” dos egípcios, nos temos o “Livro da Vida”, que também nos serve como guia, todos que foram resgatados por Cristo através do Espírito Santo, estão com os nomes registrado no Livro da Vida. Concluímos que, nossas obras competem ao nosso galardão. Nossa salvação, única e exclusivamente pela graça salvadora em Jesus Cristo, predestinados por Deus antes da fundação do mundo e registrado no Livro do Cordeiro, também antes da fundação do mundo (Ef 1:4; 1 Pe 1:20; Ap 13:8; 17:8; Jo 17:24; Mt 25:34; Hb 4:3; 9:26; Mt 13:35;)


PEDRO FERNANDES