sábado, 21 de setembro de 2013

PAULO OU TIAGO, EIS A QUESTÃO?

Durante muito tempo se valorizou a razão de ser da teologia sistemática, porém nunca foi tão importante seu valor como em nossos dias em que se destaca do texto poucas palavras e se faz um estudo com uma estranha “teologia a granel”. Já foi dito muitas vezes aqui neste blog, mas nunca é demais lembrar: “Texto sem contexto é pretexto para heresia”.

O apostolo Paulo destaca em muitos textos a Justificação pela fé somente (Rm 9:30; Rm 1:17; Rm 3:30; 2 Cor 1:24; Fl 3:9; Rm 3:28; Rm 11:20; Gl 3:26; Gl 3:11; Tt 3:7; Rm 3:22; Rm 5:1; Gl3:24; Ef2:8; Gl 3:8; Rm 4:25; Rm 10:6) e bastaria apenas uma citação para que déssemos total credibilidade a esta verdade pois cada virgula das sagradas escrituras foram cuidadosamente selecionados pelo Espirito Santo. Dentre essas queria destacar a mais evidente:

“Sabendo que o homem não é JUSTIFICADO PELAS OBRAS DA LEI, MAS PELA FÉ EM JESUS CRISTO, temos também crido em Jesus Cristo, para sermos JUSTIFICADOS PELA FÉ EM CRISTO, e não pelas obras da lei; porquanto pelas obras da lei nenhuma carne será justificada. Gl 2:16”

Fica evidenciado em apenas uma frase seu ponto de vista sobre como o homem é propiciado perante Deus, que é justamente a problemática que qualquer religião do mundo tenta resolver, o cristianismo, porém, é a única que defende a justificação pela fé somente sem a cooperação humana.

A controvérsia se dá pelo famoso texto de Tiago Cap. 2:14-18 que fala da importância das obras. Mais adiante Tiago (Irmão de Jesus) vai além e chega a dizer com todas as letras sobre “justificação pelas obras” (vs 24). Veja o que diz o texto:

“Vedes então que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé. Tg 2:24”

Tenho várias perguntas naturais sobre os dois textos que aqui apresentamos e pretendo tratar neste artigo de algumas tais como:

Em quem acreditar? Em Tiago ou Paulo?

Se existe está aparente contradição, como fica nossa confiabilidade na bíblia?

Afinal o que é correto afirmar, justificação pelas obras ou pela fé?

Antinômio ou aparente contradição.

Há na bíblia inúmeras passagens difíceis, que são passiveis de duas ou mais interpretações. Sabemos que existe, porém, apenas uma intenção que o autor no texto nos quis apresentar. Os Reformadores do sec. XVI costumavam chamar de “sentido natural do texto”, que é o primeiro sentido encontrado numa leitura natural levando em consideração o contexto literário e histórico-cultural. A bíblia apresenta os chamados “Antinômios” que é uma verdade que não nos é possível de maneira lógica e racional, ser compreendida. Dentre os antinômios mais famosos cito a Trindade, Responsabilidade Humana e Soberania de Deus, Dupla Natureza de Jesus, etc...

Além dos antinômios existem as aparentes contradições da bíblia. Por séculos a fio esta posição vem sido defendido como verdades por ateus, agnósticos e até por teólogos liberais que afirma que realmente a bíblia contém erros e que seu uso como única fonte de verdade é altamente dogmático, fanático e irracional. Norman Gaisler e Thomas Howe escreveram um livro publicado no Brasil pela editora Mundo Cristão chamado: Manual Popular de Duvidas e Enigmas e “Contradições da Bíblia” – que trata justamente sobre este assunto explicando de maneira brilhante estes supostos “erros e contradições”.

Estas duas passagens não são antinômios pois existe uma conclusão lógica e natural para os dois textos que pretendemos expor a seguir.

1.       Ocasião em que foi escrita.

Inúmeros comentaristas sustentam que Tiago escreve esta carta antes do primeiro grande concilio da igreja primitiva em que o próprio Tiago presidiu em atos capitulo 15. Estes que defendem esta posição argumentam que Tiago ainda não conhecia os preciosos argumentos de Paulo sobre Justificação pela fé, pelo modo que trata o assunto. Não se contradizem, porém Tiago usa de maneira distinta o termo e o próprio contexto deixa claro que não se trata de que alguém alcance a justificação pelas obras, mas que as “obras” são a resposta direta para aquele que se diz justificado que no fim é uma obra soberana, miraculosa e invisível, que se mostra aparente e real por nossos frutos (Mt 12:33).

2.       Texto Original.

No texto original em que foi escrito fica mais aparente seu real sentido quando Tiago se vale da palavra “justificação”. Veja o texto:

ρτε τι ξ ργων ΔΙΚΑΙΟ ται νθρωπος κα οκ κ πίστεως μόνον. Tg 2:24”
“Vedes então que o homem é JUSTIFICADO pelas obras, e não somente pela fé.Tg 2:24”

Esta variação da palavra grega “Dikaioo – ΔΙΚΑΙΟ traduzida para o português como “justificação” é utilizada por Jesus em outro texto de maneira bem interessante. Leia o texto:

“Mas a sabedoria é JUSTIFICADA por todos os seus filhos. Lc 7:35”
κα ΔΙΚΑΙΩΘΗ  σοφία π παντων τν τέκνων ατς. Lc 7:35”

Em outras palavras, parafraseando o texto, Jesus quer dizer que: “A sabedoria é demonstrada ser sabedoria verdadeira pelos seus resultados aparentes”. Este sem duvida alguma é o real sentido da argumentação de Tiago nesta perícope.

3.       Abraão e Raabe.

Tiago ao enfatizar a importância das obras se vale de dois exemplos bem estranhos à primeira vista. O publico alvo de sua carta são judeus convertidos ao cristianismo na diáspora. Chega ao ponto de chamar igreja de sinagoga (Tg 2:2) por causa dos Judeus. Para exemplificar seu argumento sobre justificação, Tiago utiliza o caso de Abraão que seria mais familiar para seu leitor hebreu. Porém o que é pouco entendido é que, Tiago não defende a propiciação humana através das obras, antes, nos lembra que Abraão recebeu a promessa de Deus (Gn 12), logo após se firma em sua aliança (Gn 15) e a evidência de que fora justificado era sua “boa obra” quando se propõe a sacrificar anos mais tarde seu único filho como prova de sua devoção a Deus (Gn 22). De igual modo coloca o caso da meretriz Raabe que diz ter crido em Deus e o que fizera através de seu povo (Js 2:9). A prova segundo Tiago que Raabe de fato creu ou a prova que Raabe de fato fora justificada foi que ela não denunciou a missão dos espias em Jericó (Js 2:15). Portanto, Tiago tem o propósito de dizer que aqueles que se intitulam justificados, mas que não produzem boas obras nada são além de tagarelas e tolos. Tiago nesta passagem combate os antinomianistas enquanto que Paulo combate os Legalistas. Não existe contradição, apenas mudança de foco e colocação.

4.       Justificação: Ato ou Prova?

A diferença principal de argumentos além da que já foi apresentada é que Paulo quando cita o mesmo exemplo de Abraão em suas cartas (Rm 4:1-25; Gl 3:6-9) tem como referencia clara o momento em que a justificação é IMPUTADA a Abraão registrado no texto de Gênesis 15:6. Quando Tiago utiliza o exemplo de Abraão tem em vista a PROVA que ele havia sido justificado que esta em outro texto que é Gênesis 22:12, que ocorreu muitos anos mais tarde no sacrifício de Isaque no monte Moriá. Entendemos portanto, que Paulo se refere à justificação pelo momento em que se propicia e Tiago se refere a suas provas.

5.       Entender a Justificação pela fé nos desobriga das obras?

Por fim, me despeço fazendo uma citação de João Calvino em sua obra prima “Institutas da Religião Cristã”, séc. XVI vol. 4, p. 147, onde sabiamente nos ensina:

“Alegam (Papistas) que as boas obras são destruídas através da justificação pela fé. Abstenho-me de dizer quem são esses zelotes de boas obras que tanto nos difamam. Que lhes seja permitido insultar tão impunemente quão licenciosamente infectam a todo o mundo com a obscenidade de sua vida. Fingem ofender-se que as obras percam seu valor quando se exalta tanto a fé. No entanto, e se com isso elas mais se exaltam e se fortalecem? Pois não sonhamos com uma fé vazia de boas obras, nem com uma justificação que subsista sem elas. A diferença está apenas nisto: enquanto confessamos que a fé e as boas obras estão, necessariamente, associadas entre si, contudo colocamos a justificação na fé, não nas obras. Por que razão isso é feito, a explicação é imediata, se tão só nos voltarmos para Cristo, a quem a fé se dirige e donde ela recebe toda sua força. Portanto, por que somos justificados pela fé? Porque pela fé nos apropriamos da justiça de Cristo, mercê da qual unicamente somos reconciliados com Deus. Desta, contudo, não poderás apropriar-te sem que, ao mesmo tempo, te apropries também da santificação, visto que “ele nos foi dado para justiça, sabedoria, santificação e redenção” [1Co 1.30]. Logo, Cristo a ninguém justifica, a quem, ao mesmo tempo, não santifique. Ora, estas mercês são ligadas por vínculo perpétuo e indivisível, de modo que aqueles a quem ilumina com sua sabedoria, os redime; aqueles a quem redime os justifica; aqueles a quem justifica, os santifica. Entretanto, uma vez que a questão é apenas acerca da justiça e da santificação, insistamos nelas. Ainda que entre elas façamos distinção, contudo Cristo contém ambas inseparavelmente nele. Queres, pois, obter justiça em Cristo? Então é necessário que antes possuas a Cristo; porém não podes possuí-lo sem que te tornes participante de sua santificação, já que ele não pode ser dividido em parcelas [1Co 1.13]. Quando, pois, o Senhor nos concede usufruir dessas mercês somente por haver-se dado a si mesmo, a ambas ele ao mesmo tempo prodigaliza, uma jamais sem a outra. Portanto, faz-se evidente quão verdadeiro é que somos justificados não sem as obras, contudo nem por meio das obras, porque na participação de Cristo, na qual consiste toda nossa justiça, não se contém menos a santificação que a justiça.”

CALVINO, João. Institutas da Religião Cristã, séc. XVI vol. 4, p. 147.  REFUTAÇÃO DAS FALSAS ACUSAÇÕES COM QUE OS PAPISTAS TENTAM GRAVAR DE ÓDIO A ESTA DOUTRINA DA JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ SOMENTE.



PEDRO FERNANDES