sábado, 26 de outubro de 2013

A BIBLIOTECA DE DEUS




Todos os homens em todas as épocas sempre tiveram consciência de pecados ou consciência moral inerente a seus atos. Talvez uma das primeiras compilações em forma de livro, foram dos egípcios. Quando alguém morria no Egito antigo, era feito um ritual de mumificação e junto com a múmia no sarcófago, eles deixavam uma espécie de cópia de um livro que segundo a crença serviria de guia espiritual contra alguns problemas que enfrentariam após a morte. Este livro ficou mundialmente conhecido como “livro dos mortos” e seu objetivo era que o candidato fosse guiado no caminho do além. Era comum a crença que diante da deusa Maat não valeria riqueza ou posição social, mas como esta pessoa se comportou ou o que praticou em sua vida. Podemos dizer que não comungavam da “justificação pela fé, sem as obras da lei (Rom 3:28)”, daí a importância deste livro para o povo. O que nos chama a atenção é a similaridade com a fé cristã, pois também temos um livro, que também serve como guia espiritual. Aqueles que foram escritos neste livro, não perecem, mas vivem para sempre (Ap 3:5). Falamos é claro no livro da vida, que tem causado muita polemica e debates ao longo dos séculos. Meu intuito portanto, não é fomentar a discussão, antes sistematizar nossa crença.

Sobre o livro da vida (Ap 20:15) temos um enorme número de teorias e explicações, a maioria especulativa, e em sua maioria, não satisfazem a quem questiona tanto de um lado como de outro. Afinal, que livro é este? Quando foi escrito? Existem mais deles? Ainda está sendo modificado? Como faço para colocar meu nome nele?

Todos nós conhecemos um dos jargões gospel mais famosos dentro da igreja moderna:

“Escreve Senhor meu nome no livro da vida nesta noite...”

“Eu creio que meu nome está sendo escrito agora pela fé, pois o que eu ligo na terra está sendo ligado nos céus...”

Precisamos com discernimento e subordinados a palavra de Deus, avaliar as passagens bíblicas a este respeito para que possamos compreender um pouco mais sobre este complicado assunto que sem dúvida alguma, entra em conflito com qualquer visão teológica e ampara implicações soteriológicas.

Comecemos falando sobre a diversidade de “livros” citados na bíblia para que possamos avaliar em qual categoria nosso estudo irá pairar. A medida que a narração bíblica vai evoluindo parece que dependendo do contexto que o autor quer anunciar, ele se vale de alguns livros como exemplo, senão vejamos:

LIVRO DOS VIVOS

“Sejam riscados do livro dos vivos, e não sejam inscritos com os justos. (Sl 69:28)”

O salmo faz distinção entre os que estão vivos e os que estão mortos, e que Deus possui um livro com estes dados. Como um registro civil que constassem todos que vivem dentro de uma cidade e quando morrem, são riscados deste livro. No salmo não aparece de forma literal, mas simbolicamente. Este livro é metafórico portanto.

LIVRO DA HISTÓRIA – (Sl 139:16)

“Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe; e no teu livro todas estas coisas foram escritas; as quais em continuação foram formadas, quando nem ainda uma delas havia. (Sl 139:16)”

Este livro se resume ao argumento comprobatório sobre onisciência de Deus ao rumo dos acontecimentos. O salmista em um contexto onde Deus sonda tudo e todos, conhece a mente e os corações (Sl 139:2), conhecendo tudo o que existe ou vai existir, apela ao fato que todos estes acontecimentos estão registrados em um livro. Tudo já está previamente estabelecido por Deus, Ele não apenas conhece o futuro, mas também o determina.

LIVRO DAS CRÔNICAS - (2 Rs 15:31)

“Ora, o mais dos atos de Peca, e tudo quanto fez, eis que está escrito no livro das crônicas dos reis de Israel. (2 Rs 15:31)”

Parece muito provável que Israel tenha produzido ao longo de sua história diversas literaturas comuns ao conhecimento do povo, tão comum e útil a compreensão, que diversos autores bíblicos fazem referências destes escritos que certamente o leitor daquela época estaria bem situado. O “livro das Crônicas dos Reis de Israel” citado inúmeras vezes no AT trazia uma parte dos reinados em Israel e suas implicações históricas, além de possivelmente ser um livro oficial e de posse hereditária (2 Rs 15:11; 2 Rs 15:15; 2 Rs 1:18; 2 Rs 15:31; 2 Rs 15:21;2 Rs 15:26;1 Rs 16:14;1 Rs 16:20;1 Rs 15:31;2 Rs 12:19;1 Rs 16:5;2 Rs 10:34;2 Rs 14:15;1 Rs 14:19;2 Rs 13:8; 1 Rs 16:27;2 Rs 14:18;2 Rs 15:36;2 Rs 23:28;2 Rs 14:28; 2 Rs 21:25;2 Rs 13:12;1 Rs 14:29;2 Rs 15:6;2 Rs 24:5;1 Rs 22:39; 2 Rs 16:19;2 Cr 20:34; 1 Rs 22:46;2 Rs 21:17;2 Rs 8:23;1 Rs 15:7;2 Cr 25:26;2 Rs 20:20;2 Cr 35:27;1 Rs 15:23;Es 10:2;Ne 12:23; 1 Cr 9:1; 2 Cr 32:32; 2 Cr 28:26; 2 Cr 27:7; 2 Cr 16:11; Es 6:1; 2 Cr 33:18...).

Além dos “livro das Crônicas dos Reis de Israel”, temos vários livros que a bíblia cita que não temos fonte muito menos acesso, mas que foram escritos em Israel e que certamente o povo se valia destes livros.

a)      Provérbios e Cânticos de Salomão: (1Rs 4:32-33);
b)      Livro dos Atos de Salomão (1Rs 11:41);
c)       Livro do Justo (Js 10:13);
d)      Livro dos Reis (2Cr 24:27);
e)      Anais dos Reis de Israel (2Cr 33:18);
f)       Comentários de Jeú, filho de Hanani (2Cr 20:34);
g)      A História de Osias, por Isaías, filho de Amós, o profeta (2Cr 26:22);
h)      Palavras de Hozai (2Cr 33:19);
i)        Livros dos Medos e dos Persas (Et 10:1-2);
j)        Livro das guerras do Senhor (Nm 21:14);
k)      Livro do Profeta Natã (2Cr 9:29);
l)        Livro de Samuel, o Vidente (1Cr 29:29);
m)    Livro de Aías, o Silonita (2Cr 9:29);
n)      Livro de Ado, o Vidente (2Cr 9:29; 2Cr 12:15; 2Cr 13:22);
o)      Livros de Semaias, o profeta (2Cr 12:15);
p)      Livro das Crônicas dos Reis de Israel (1Rs 14:19);
q)      Livro das Crônicas dos Reis de Judá (1Rs 14:29);
r)       Livro de 1° Enoque (Jd 1:14);
s)       Livro da Ascensão de Moisés (Jd1:9).

LIVRO DA LEI DE DEUS E LIVRO DA LEI DE MOISÉS– (Gl 3:10; Js 23:6)

Aqui é importante uma reflexão pois os adventistas sustentam que estes dois livros, quando registrados na bíblia, não são como sinônimos, mas realmente como livros separados, sendo um “livro da lei de Deus” e outro “livro da lei de Moisés”. Com uma interpretação alegórica sustentam que, dentro da arca da aliança continham as palavras com a lei de Deus (Decálogo) e fora da arca, a parte, existia um livro batizado de “livro da lei de Moisés” (Dt 31-24-26) que prescrevia as leis cerimoniais que deveriam mais tarde ser abolidas pois, foram de antemão figurativas. É evidente aqui um esforço sobre-humano para espremer da bíblia o que não é sua intenção, apenas para determinar leis continuístas e descontinuadas. Na verdade estas duas terminações são referências a lei de Deus (Ex 20; Dt 5). Temos inclusive o momento exato em que Moisés compele tudo o que recebera em apenas um livro, o que nos prova sua unicidade:

“E aconteceu que, acabando Moisés de escrever num livro, todas as palavras desta lei,
Deu ordem aos levitas, que levavam a arca da aliança do Senhor, dizendo:

Tomai este livro da lei, e ponde-o ao lado da arca da aliança do Senhor vosso Deus, para que ali esteja por testemunha contra ti. (Dt 31:24-26)”

Apesar do “livro da lei de Moisés” estar ao lado da arca da aliança, e o decálogo dentro da arca, seu conteúdo é nada mais que as próprias palavras recebidas por Moisés no Sinai (Ex 19). Em outra parte Moisés o chama de livro da aliança (Ex 24:7), e que claramente apesar de outro titulo, ainda se refere a um único livro intitulado de várias maneiras.

LIVRO DA PROFECIA - (Ez 2:9)

“Então vi, e eis que uma mão se estendia para mim, e eis que nela havia um rolo de livro. (Ez 2:9)”

Os profetas eram pessoas levantadas e capacitadas por Deus para admoestar, edificar e exortar seu povo. De forma que estes profetas eram ferramentas, todas as coisas provinham de Deus. Naturalmente o conteúdo de sua mensagem que hoje conhecemos uma parte ou o suficiente para que creiamos, eram recebidos por visões (At 10:10), teofanias (Ex 3:2), escutando a voz de Deus (1 Sm 3:4-10), sonhos (Jl2:28), etc...

Neste texto, Ezequiel recebe esta profecia para ser proferida ao povo (casa rebelde), como uma espécie de visão de um livro, que claramente neste, estavam contidas a mensagem que Ezequiel deveria trazer da parte de Deus (Ez 2:7).

O LIVRO COM SETE SELOS É O LIVRO DA VIDA?

Fazemos esta pergunta, pois muito já foi dito a este respeito, mas a verdade é que pouco se sabe a respeito deste misterioso livro. Temos grande inclinação a acreditar que este livro que começa a ser descrito com mais clareza na bíblia em Apocalipse 5, não é o mesmo que o “livro da Vida” ou “Livro do Cordeiro”. Seu conteúdo é um mistério, o Instituto Moody de Chicago, em seu comentário sobre apocalipse comenta:

“O livro mesmo jamais é aberto. Isto, é claro, leva a muitas sugestões quanto ao conteúdo do livro. Simcox diz, certamente errando, que é o Livro da Vida. Irineu (pai da igreja) insiste que continha "as coisas de Cristo". Swete tem segurança ao dizer que o seu conteúdo abrange o futuro desconhecido, e assim ele o intitula de "o livro do destino". Milligan diz que contém "todo o conselho de Deus”. Comentário Bíblico Moody”

Como dito é um mistério seu conteúdo. O apóstolo João escreve esta revelação com o intuito de consolar e edificar a igreja de Cristo em todos os tempos, mas ainda que revelado, continuamos com vários mistérios que conheceremos apenas na Glória.

LIVRO DO CORDEIRO OU LIVRO DA VIDA

Este livro com certeza é o mais conhecido dentre os outros, também em proporção, o mais mal interpretado. Temos menção deste livro apenas no novo testamento, uma vez que, como já visto, os outros livros do AT referenciam outros aspectos. Ele aparece no AT apenas com o profeta Daniel em suas profecias (Dn 7:10; Dn 12:1). Este livro aludi a salvação do indivíduo. Se alguém tem seu nome escrito no livro da vida, então será salvo (Ap 20:15). Em outras palavras, “Se tiver seu nome escrito no livro da vida então significa que Jesus o resgatou na cruz (Cl 2:14), e de maneira nenhuma será condenado (Jo 6:37) ou perderá sua parte no Reino Eterno.”

Ademais veremos alguns aspectos para que compreendamos um pouco mais sobre o “Livro do Cordeiro” ou “livro da Vida”.

a)      Quando foi escrito?

“E adoraram-na todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo. (Ap 13:8)”

Agora foi a vez dos pentecostais que observei em suas argumentações em favor do sinergismo, que sugerem a observação do texto original para percebermos que no texto de Ap 13:8 onde se diz “desde a fundação do mundo” no original se vale de:

Pro katabólês kosmon” – (desde a fundação do mundo - προ καταβολης κοσμου)

O que é diferente de:

antes da fundação do mundo” como sugerimos.

Em outras palavras eles afirmam que, “desde a fundação do mundo este livro vem sendo escrito”.

Estamos frontalmente contra esta posição que se vale de uso de traduções como fontes primárias, sem pesquisas etimológicas ou de qualquer outro gênero cientifico. Verifique que este argumento é facilmente combatido. Para uma rápida apologética, analisaremos que o texto traduzido em Ef 1:4 é utilizado o mesmo termo que em Ap 13:8. Veja o texto:

“Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo; (Ef 1:4)”

“καθως εξελεξατο ημας εν αυτω προ καταβολης κοσμου; (Ef 1:4)”

Não resta dúvida que este livro foi escrito e selado antes da fundação do mundo e que nada pode ser alterado e/acrescentado a este livro, pois Deus nos predestinou em amor, antes da fundação do mundo.

b)      Posso ser riscado do Livro da Vida?

Em segundo momento, apresentam a doutrina de que um Cristão regenerado e justificado pode um dia, em virtude de seus atos, perder a sua salvação e ter o nome riscado do livro da vida. O principal texto para esta argumentação é Ex 32:32-33 onde Moisés tipificando a propiciação de Cristo, pede a Deus para que brande sua ira contra o povo, o que é inútil, pois apenas Jesus teria méritos suficientes:

“Agora, pois, perdoa o seu pecado; se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito.
Então disse o Senhor a Moisés: Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro. (Êx 32:32-33)”

Como já foi visto neste estudo, facilmente comprovamos que existiam inúmeros livros no AT. Os reis da antiguidade possuíam um livro com o registro de todos os cidadãos de seu reino. De forma que quando morriam, tinham seu nome riscado do livro do reino. Deus aparentemente possuía um livro parecido que prefigurava o livro do cordeiro que conhecemos.  No livro dos vivos, as pessoas quando morriam eram riscados, pois perdiam a vida, e só poderiam ficar os vivos registrados neste livro. Vemos que todo este sistema aponta para Jesus, que somente em Cristo recebemos a promessa da vida (2Tm 1:1), pois ele é o Pão da Vida (Jo 6:48) e Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens (Jo 1:4):

“Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus, segundo a promessa da vida que está em Cristo Jesus, 2 Tm 1:1”

Afinal, servimos o Deus de vivos, não de mortos, pois todos que receberam vida através do Cordeiro que tira o pecado do mundo (Jo 1:29), não é riscado do livro dos vivos (Ex 32:32-33):

“Ora, Deus não é Deus de mortos, mas de vivos; porque para ele vivem todos. Lc 20:38”

Concordo com Jonh MacArthut Jr. que iluminado comenta:

“Êxodo 32:33, alguns argumentam, apóia a idéia que Deus pode remover o nome de alguém do Livro da Vida. Nessa passagem, o Senhor diz a Moisés que “aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro”. Não há contradição, contudo, entre essa passagem e a promessa de Cristo em Apocalipse 3:5. O livro mencionado em Êxodo 32:33 não é o Livro da Vida descrito em Filipenses 4:3, e mais tarde em Apocalipse (13:8; 17:8; 20:12, 15; 21:27). Pelo contrário, refere-se ao livro dos vivos, o registro daqueles que estão vivos (cf. Sl. 69:282). A ameaça, então, não é a condenação eterna, mas a morte física.”

Artigo: Riscar o Nome do Livro da Vida?
Autor: John MacArthur, Jr.
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto1

c)       O Tribunal de Cristo

“E vi os mortos, grandes e pequenos, que estavam diante de Deus, e abriram-se os livros; e abriu-se outro livro, que é o da vida. E os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras. Ap 20:12”

A grande discussão em torno deste Livro se dá em razão a sua importância e utilização. Como vimos no texto acima, no Dia do Juizo Final, o Livro da Vida terá fundamental importância para o julgamento de todos. O texto parece apresentar um julgamento baseado em nossas obras, destruindo aqui, o pilar de nossa fé, de que somos salvo pela graça (Ef 2:8-10). Este interpretação se parece mais com o julgamento da deusa Maat, apresentado no começo do texto. Porém ao analisarmos o texto, veremos que não se trata de “justificação pelas obras” ou coisa parecida, mas vários livros descritos, não somente o Livro da Vida.

Diz o Texto:

“e abriram-se os livros; e abriu-se outro livro, que é o da vida. Ap 20:12a”

Vimos aqui, dois tipos de livro, “livros” com nossas obras, e por fim o “Livro da Vida”.

“E os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras. Ap 20:12b”

Temos aqui salvação pelas obras? Evidente que não! Verifique que não esta sendo discutido salvação no texto, pois não se trata do Livro da Vida, que compete a salvação, mas dos “Livros” que contem nossas obras, que será neste grande Dia, julgado nosso GALARDÃO.

Quanto à salvação (Livro da Vida), temos este julgamento apenas no v. 15:

“E aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo. Ap 20:15”

Com o exposto sobre todos os Livros e sua natureza, vimos à quantidade de livros e o quanto devemos estar atento para uma melhor compreensão das escrituras sagradas. Assim como o “livro dos Mortos” dos egípcios, nos temos o “Livro da Vida”, que também nos serve como guia, todos que foram resgatados por Cristo através do Espírito Santo, estão com os nomes registrado no Livro da Vida. Concluímos que, nossas obras competem ao nosso galardão. Nossa salvação, única e exclusivamente pela graça salvadora em Jesus Cristo, predestinados por Deus antes da fundação do mundo e registrado no Livro do Cordeiro, também antes da fundação do mundo (Ef 1:4; 1 Pe 1:20; Ap 13:8; 17:8; Jo 17:24; Mt 25:34; Hb 4:3; 9:26; Mt 13:35;)


PEDRO FERNANDES