terça-feira, 26 de novembro de 2013

NÃO QUERO CEAR, ESTOU DE BARRIGA CHEIA!




Dentro dos relatos romanos e pagãos sobre o cristianismo no primeiro século, o jovem governador imperial Plínio (61/62 Dc.) relata em uma carta que alguns cristãos foram levados a julgamento por um hábito semanal de “participar de alimentos”, mas que no final, para seu espanto e decepção, descobriu que era um hábito inofensivo. Isto se dá ao fato de que ele esperava um ritual “sinistro e macabro” dentre aqueles meios. Meados do século segundo, foi relatado de maneira sensacionalista e tendenciosa por Marco Fronto (100-166/176 Dc.) o seguinte:

A história da iniciação de seus (ou seja, dos cristãos) novatos (é) tão horrível como é bem sabido. Um bebê coberto de massa de farinha, para enganar o ingênuo, é colocado diante do iniciado em seus ritos. Ao ver a massa de farinha, o novato é encorajado a dar-lhe pancadas aparentemente inofensivas; e o bebê é morto pelas feridas não vistas e ocultas. Sedentos – oh! Que horror! – eles lambem o seu sangue, competem na divisão de seus membros, se unem em torno de sua vitima, se comprometem ao silencio mutuo em relação a cumplicidade no crime. Estes ritos são mais abomináveis do que qualquer sacrilégio.

Redescobrindo os pais da igreja – Dr. Michael A. G. Haykin – Editora Fiel (Ago. – 2012) – pg. 106.

Pelo numero de apologistas cristãos que combateram estes ensinamentos no segundo século, eles deveriam ser amplamente difundidos entre o povo, ironizando os ensinamentos sobre um suposto “canibalismo” retirado dos evangelhos: “Jesus, pois, lhes disse: Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Jo 6:53”

Neste contexto, por um lado mal interpretado e difamado, por outro totalmente desconhecido de propósitos, é que dois grandes teólogos da era patrística, fazem uma espécie de primeiro tratado sobre a Ceia do Senhor.

CIPRIANO DE CARTAGO

O primeiro é Cipriano, além de que foi Bispo no Norte da África (Cartago), pouco se sabe de sua vida a não ser que era homem de boa situação financeira e que abandonara tudo por uma vida de santidade. Anterior a era de Constantino, temos em Cipriano excelentes explanações e estudos a cerca da Santa Ceia. Seu primeiro escrito sobre a Ceia (carta 63) foi combatendo uma prática denominada como “Aquariana”, ou seja, ceavam com o uso de água ao invés de vinho misturado com água. Combatendo a ceia “aquariana” Cipriano infere que Jesus disse que “Eu sou a videira verdadeira”, logo, o Sangue de Cristo não se simboliza com água, mas vinho. Além disso, se vale de uma antiga versão latina do Salmo 23.5 onde se dizia: “Teu cálice, embora o mais excelente é intoxicante”. Ligando o texto a ceia, afirma que a água sozinha nunca causaria inebriação. Cipriano defende que a leve embriaguez da ceia (diferente da embriaguez do mundo que causa apenas insobriedade), causa uma sobriedade que restaura corações à sabedoria celestial, depois de provar as experiências desta era. Sobre a mistura de água com vinho, defendia que a água é o como o povo de Deus, o vinho naturalmente como o sangue de Cristo. Portanto, o povo de Deus está em uma união indissolúvel com Cristo e em completa comunhão entre eles. Por fim podemos dizer que Cipriano, segundo PT Forsyth , (1848 — 1921), foi o principal culpado por tornar a Ceia que deveria ser um Sacrifício de Louvor, por um sacrifício propiciatório realizado apenas pelo sacerdote (chama bispo e presbíteros de sacerdote, imitando a Jesus como tal), o que analisaremos mais tarde suas implicações.

AMBROSIO DE MILÃO

Assim como Cipriano, Ambrósio também era um aristocrata, e governador de uma província antes de ser designado como bispo em Milão. Antes mesmo de ter conhecimento teológico e nem mesmo ser batizado, foi posto bispo em caráter de um cargo que já naquela época (374) era altamente político. Foi fortemente influenciado pela pregação alegórica de Orígenes de Alexandria (185-254), o que fez com que um jovem rapaz ficasse intrigado por suas pregações, e mais tarde se converteria ao Cristianismo, conhecemos este jovem hoje como St. Agostinho de Hipona (354-430), um dos maiores teólogos de todos os tempos. Agostinho nos chama atenção em alguns relatos ao comentar que Ambrósio escreveu seu primeiro tratado teológico sobre a virgindade e celibato, além de introduzir cantos congregacionais no culto público. Ambrósio assim como Cipriano, via no antigo testamento, inúmeras predições da ceia: A embriaguez de Noé; a oferta de pão e vinho a Melquisedeque ofertada por Abraão; a mulher Sabedoria em Provérbios 9; A benção de Judá...Mas o âmago do pensamento de Ambrósio sobre a Ceia, foi sobre o que conhecemos hoje como o conceito de transubstanciação dos elementos, em nossos dias, apenas os católicos romanos ainda acreditam na transubstanciação. Como dito, esta posição se deu, fortemente influenciada pela interpretação alegórica dos textos bíblicos. Apesar da confusão sobre os elementos, Ambrósio trouxe a congregação uma reverencia a este sacramento como nunca antes fora experimentado, o que nos leva ao próximo passo deste estudo que é ver como interpretamos hoje os elementos da ceia.

OS ELEMENTOS

Podemos de maneira resumida dizer que existem quatro interpretações sobre os elementos da ceia:

·         Transubstanciação;
·         Consubstanciação;
·         Memorial ou Realista;
·         Virtualismo ou União Espiritual;

Faremos agora um rápido estudo sobre cada um deles e suas implicações.

1.       TRANSUBSTANCIAÇÃO

A transubstanciação como apresentado, foi primeiramente defendida por Ambrósio de Milão ou pouco provavelmente por Inácio de Antioquia. Esta visão defendida hoje apenas pela Igreja Católica Romana, acredita que após o sacerdote (sacerdos, como inaugurou Cipriano) consagrar os elementos eles passam LITERALMENTE a ser o corpo e o sangue de Cristo, muda-se as substancias e não os seus acidentes. Desta forma todas as vezes que se realiza a eucaristia, repete-se o sacrifício de Jesus pelo seu povo. Com isso é fácil entender porque padres com o intuito de que os leigos tenham maior compreensão sobre o “mistério” da ceia, pedem que não se mastigue a hóstia após ser consagrada, pois se trata literalmente do próprio corpo de Cristo.

Implicações

Um dos maiores agravantes é que se repete em toda missa, o sacrifício pascoal de Jesus, o que contraria inúmeros textos do NT onde se diz que Jesus se sacrificou uma vez por todas pelos escolhidos de Deus (Rm 6.9-10; Hb 7.27; 9.12, 26, 28; 10.10; 1Pe 3.18). Assim como o escritor de Hebreus nos ensina, o sangue de bodes e de touros não podem pagar pecados (Hb 10:4). Todos os anos o sacerdote sacrificava um animal pelo mesmo propósito (Hb 10:1), de forma que o pecado até fazia aniversário (Hb 10:3), porém, Jesus de uma única vez se deu por oferta ao pecado (Hb 10:18), de maneira que repetir este sacrifício é quase dizer que o que já foi realizado é ineficaz ou insuficiente e iguala o sangue de Jesus ao sangue de touros e bodes.

A transubstanciação contradiz a ciência e a lógica pois é impossível mudar a substancia sem mudar os seus acidentes, além disto parece contrariar a interpretação do texto do evangelho de João onde se diz:

“Jesus, pois, lhes disse: Na verdade, na verdade vos digo que, se não COMERDES A CARNE DO FILHO DO HOMEM, E NÃO BEBERDES O SEU SANGUE, NÃO TEREIS VIDA EM VÓS MESMOS. Jo 6:53”

Em forte combate a transubstanciação romana o catecismo de Heidelberg no traz preciosos argumentos:

CATECISMO DE HEIDELBERG - DOMINGO 30
Pergunta 80: Que diferença há entre a Ceia do Senhor e a missa do papa?

REPOSTA. A Ceia do Senhor nos testemunha que temos completo perdão de todos os nossos pecados, pelo único sacrifício de Jesus Cristo, que ele mesmo, uma única vez realizou na cruz; também que pelo Espirito Santo, somos incorporados a Cristo que, agora, com seu verdadeiro corpo, não está na terra, mas no céu, à direita do Pai e lá que ser adorado por nós.

A missa, porém, ensina que Cristo deve ser sacrificado todo dia pelos sacerdotes, em favor dos vivos e dos mortos, e que esses, sem a missa, não tem perdão dos pecados pelo sofrimento de Cristo; Também, que Cristo está corporalmente presente sob a forma de pão e vinho e, por isso, neles deve ser adorado.

A missa, então, no fundo, não é outra coisa senão a negação do único sacrifício de sofrimentos de Cristo e uma idolatria abominável.

Mt 26:28; Lc 22:19.20; Jo 19:30; Hb 7:26-27; Hb 9:12; Hb 10:10-14; 1Co 6:17; 1Co 10:16-16; Jo 20:17; Cl 3:1; Hb 1:3; Hb 8:1-2; At 7:55-56; Fp 3:20; Cl 3:1 1 Ts 1:10; Hb 9:26; Hb 10:12-14.

Os Judeus estavam escandalizados com a afirmação de Jesus, e pensaram que ele queria discípulos antropófagos. Na Verdade foi uma tremenda confusão causada por uma interpretação literal das palavras de Jesus, o que parece ser exatamente o mesmo erro dos que creem na transubstanciação.

2.       CONSUBSTANCIAÇÃO

Esta é a irmã gêmea da transubstanciação e defende que não existe uma transformação dos elementos, mas uma união das substancias de Cristo com as substancias dos elementos. Desta forma, o pão permanece pão, mas juntamente com as substancias de Cristo. Talvez o primeiro a defender esta tese foi Berengario de Tours (1000-1088), mas quem ficou conhecido como precursor desta posição foi Martinho Lutero (1483-1546). Lutero para defender sua crença, se valia da ubiquidade do corpo de Cristo, ou que chamamos de onipresença. Assim, Jesus podia estar assentado a destra de Deus pai nas regiões celestiais com um corpo glorificado, e também presente na eucaristia ou em qualquer lugar. Novamente temos as mesmas implicações cientificas e teológicas sobre o tema já apresentado sobre sua irmã gêmea, apenas com algumas ressalvas, pois Lutero entendia o problema da repetição do sacrifício e não o aceitava, porém não via outra possibilidade de ver João 6:53 se não de forma literal.

3.       MEMORIAL

Esta é terceira forma de enxergar a Ceia, e está à frente um dos grandes nomes da reforma protestante do sec. XVI, o suíço Ulrico Zuínglio (1484-1531). Zuínglio combateu fortemente a visão de Lutero e afirmava que a Ceia era apenas uma ordenança e que as palavras de Jesus quanto a “Eu sou o pão da vida” deveriam ser vistas como metáforas. Defendia que de maneira nenhuma Cristo se faz presente nos elementos e que a virtude do sacramento está no fato de o crente fazer recordação do sacrifício vicário de Cristo e que através deste memorial o crente é transformado e abençoado.

Temos em Zuínglio grande contribuição para uma correta administração deste sacramento, além de que, se harmoniza com as palavras de Jesus “Fazei isso, em memória de mim”. (1Co 11.23-25).

4.       VIRTUALISMO

Naturalmente prefiro nossa quarta interpretação sobre os elementos da ceia (pão e vinho), que é de João Calvino (1509-1564). Calvino diz que a presença de Jesus é apenas espiritual e que está visivelmente presente, sendo exibido nos elementos. Desta forma, quem participa da Ceia, se alimente espiritualmente de nosso Senhor. É evidente que quando dizemos que Jesus está presente espiritualmente nos elementos, não significa que os elementos tenham alguma espécie de “poder” ou que se um descrente participar da ceia, poderá através deste “poder” ser restituído ou abençoado. Na verdade como o apostolo Paulo nos diz, quem participa da ceia indignamente bebe juízo a si mesmo (1 Co 11:28-29). Portanto, a eficácia da participação da ceia para o crente está intimamente ligada a atuação do Espirito Santo que distribui as bênçãos e faz a ministração da verdadeira participação espiritual do corpo e do sangue de Jesus Cristo. Em outras palavras, quando Jesus diz que “Eu sou o pão da vida” é uma metonímia, apenas uma figura de linguagem, porém alcançamos alimento espiritual de fato, alcançando Cristo mediado pelo Santo Espirito.

A confissão de fé de Westminster adotou esta interpretação assim como as igrejas reformadas em geral. Veja o Breve Catecismo de Westminster:
               
PERGUNTA 96. O que é a Ceia do Senhor?

R. A Ceia do Senhor é o sacramento no qual, dando-se e recebendo-se pão e vinho, conforme a instituição de Cristo, se anuncia a sua morte, e aqueles que participam dignamente tornam-se, não de uma maneira corporal e carnal, mas pela fé, participantes do seu corpo e do seu sangue, com todas as suas bênçãos para o seu alimento espiritual e crescimento em graça.

Ref. 1Co 11.23-26; At 3.21; 1Co 10.16.

Calvino entendia que devido nossa ignorância, Deus se “acomoda a nossa capacidade”. Como uma mãe que limita e reduz sua linguagem quando quer ensinar seu filho a falar. Nesta analogia, é como se Deus através da ceia, de maneira didática e compreensível, nos traz a luz ensinamentos e bênçãos riquíssimas para nossa caminhada cristã.

A PASCOA

Dado todos os tipos de interpretação de ceia na história, veremos no AT suas predições e simbolismos, começando pela pascoa. Hoje quando se fala em Páscoa se lembra sempre em ovos de chocolate e coelhos. Isso se deve a um ritual pagão que tinha a  lebre e não o coelho, como símbolo da deusa Gefjun. Suas sacerdotisas eram ditas capazes de prever o futuro observando as entranhas de uma lebre sacrificada. A versão “coelhinho da páscoa, que trazes pra mim?” é comercialmente mais interessante do que “Lebre de Eostre, o que suas entranhas trazem de sorte para mim?”, que é a versão original desta rima.

A Pascoa na verdade é a festa judaica mais antiga que temos relato. Foi instituída logo antes de Israel ser liberto da escravidão no Egito (Ex 12) juntamente com o seu calendário. A origem da palavra Pascoa (do hebraico Pessach), significa “passagem” (do grego Πάσχα). Esta passagem, pode significar duas coisas, (1°) a “passagem” do povo pelo mar vermelho em fuga do Egito ou (2°) a passagem do anjo da morte como a 10° praga de Deus contra o povo egípcio. Vejo na segunda posição mais naturalidade textual (Ex 12) pois é exatamente “através” da passagem do anjo ferindo mortalmente os primogênitos, que Moisés consegue libertar seu povo e institui-se a pascoa como celebração.

A pascoa era separada em duas etapas:

1)      14° dia do primeiro mês (Abide ou Nisã (Ne 2:1; Et 3:7): Março-Abril) do ano:

Comer às pressas um cordeiro assado com ervas amargas, acompanhado ao final de vinho (cada pessoa devia tomar quatro cálices de vinho); O simbolismo em comer às pressas, está na maneira como Israel saiu do Egito, as ervas amargas, o sofrimento de Cristo (Lm 3:16), e o sangue cordeiro, foi a oferta substitutiva para salvação do povo, quando Deus os livrara do anjo da morte (Ex 11). Após o banquete, os participantes deveriam se vestir como se fossem viajar, lembrando o êxodo de Israel.

2)      15° ao 21° dia do mesmo mês:

O banquete servido com pães Asmos virou obrigação em Israel, todos participavam do banquete, ainda que através da contribuição dos cofres públicos para a participação de famílias mais carentes. Os pães Asmos também está relacionado com a libertação de Israel às pressas do Egito. Naquela época não se havia fermento com facilidade, deste modo, se fazia uma massa levedada de uma dia para outro para que após a mistura, a massa viesse a crescer. Pão Asmo, portanto, é pão sem fermento, não como conhecemos hoje, mas quer dizer que não podiam esperar todo o tempo necessário para esperar se fazer o fermento, que se fazia de um dia para o outro.

OS PÃES DA PROPOSIÇÃO

Com o simbolismo da Páscoa, que prefigura o sacrifício de Jesus Cristo como cordeiro substituto dado por libação por nossos pecados, precisamos agora entender o que significa os pães da proposição.

“Também tomarás da flor de farinha e dela cozerás doze pães, cada um dos quais será de duas dizimas de um efa. E os porás em duas fileiras, seis em cada fileira, sobre a mesa de ouro puro, perante o Senhor. Sobre cada fileira porás incenso puro, que será, para o pão como porção memorial é oferta queimada ao Senhor. Em cada sábado, Arão vos porás em ordem perante o Senhor, E continuamente, da parte dos filhos de Israel, por aliança perpétua. Lv 24:5-9.”

Qual local eles estavam? A quantidade dos Pães? De onde vinham? Quem os comia? Como eram arrumados sobre a mesa? O que simbolizavam?

Os pães eram os sacerdotes quem os fazia. Vemos que Arão colocava em uma mesa banhada a ouro (não era de ouro maciço pela mobilidade do tabernáculo), doze pães enfileirados, dividido em dois grupos de seis. Para quem pensava que os pães da proposição representava Jesus, porém, pela quantidade (doze) vemos claramente um simbolismo entre as doze tribos de Israel, ou seja, os pães representavam o povo de Deus. O sacerdote traziam os pães à presença do Senhor, mas diz o texto que eles eram oferecidos da parte do filhos de Israel (v. 8). O sacerdote montava a mesa, com um grande banquete mas ninguém participava. Podemos inferir que os pães representavam aqueles que não podiam estar presentes naquele local, pois existia um “véu” que separava o santo lugar do “santo dos santos”, onde mais tarde Jesus garantiria nosso acesso (Mt 27:51). Portanto, o povo de Deus estava ali representado pelos pães.

O VEU FOI RASGADO!

Por consequência nos vem as indagações: o véu foi rasgado com qual propósito? para o povo de Israel que era totalmente proibido este acesso, se fosse permitido o que eles fariam? Hoje que temos acesso ao “santo dos santos”, o que mudou em nossas vidas?

O que mudou hoje que temos acesso ao “santo dos santos”, é que podemos participar deste banquete que estava anteriormente proibido ao povo de Deus (pães da proposição e a pascoa), o que nos traz a uma comunhão com o Criador através de Seu santo filho Jesus. Estamos no “santo dos santos” sempre que participamos da Santa Ceia hoje, de forma que temos comunhão com Jesus e o povo de Deus através de seu corpo e sangue (pão e vinho). Com este novo paradigma, podemos compreender melhor agora a Ceia realizada por Jesus.

A SANTA CEIA

No evangelho de Lucas, Jesus encaminha Pedro e João para fazer os preparativos para a pascoa (Lc 22:7). Importava que a ceia fosse realizada neste dia (14° dia do primeiro mês - Abide ou Nisã - Ne 2:1; Et 3:7) pois Jesus cumpriria duas simbologias ao mesmo tempo: 1) Assumiria o lugar do cordeiro pascoal (Jo 1:29,36; 1Co 5:7; 1Pe 1:18-19; Ap 5:6,9-12; 12:11) e 2) cumpriria a ceia dos pães da proposição o que antes estava restrito ao povo. Ao passo que através de seu corpo e sangue (pão e vinho), tomamos posse pela fé, de tais bênçãos como o poder propiciatório do sangue do redentor (Páscoa) e entramos no “santo dos santos” em comunhão com nosso Salvador (comendo os Pães da Proposição). Em outras palavras “entramos no santos dos santos, encontramos com Jesus sentado à mesa com 12 pães postos em meio a um banquete, tiramos os doze pães que nos guardavam lugar, e comemos com Ele esta ceia todas as vezes que participamos do pão e do vinho hoje, e o faremos até que Ele retorne em glória!”.

Israel ansiou por tempos participar da ceia (Pães da Proposição) e não podiam... O sacerdote serviam os pães e montavam os banquetes, porém em algum tempo os pães eram retirados e colocado pães frescos e ninguém os tocava. O próprio Rei Davi ao pedir comida ao sacerdote, acaba comendo os pães da proposição, mas comeu aqueles que já não estavam mais na presença do Senhor (1Sm 21:6). Fica mais evidente as palavras de Jesus “tenho desejado ansiosamente comer está Pascoa convosco (Lc 22:15)”. Durante a ceia é possível imaginar a preocupação do apostolo Pedro vendo Jesus pegando nos pães à mesa e pensando “será se Ele não sabe que não se pode tocar?”. E o mais impressionante é que além dEle “tocar” o pão, diz o texto que “tendo dado graças, partiu o pão e lhes deu (...)” Pedro deva ter ficado louco pensando “não bastava tocar, o que já era terrível, agora quer que comamos?” Neste ponto podemos dizer que a ceia, como popularizou o teólogo alemão Wolfhart Pannenberg, um evento proléptico, isto é, que mostra hoje ainda que limitado, o que será amanhã de maneira plena. Podemos dizer com isso que, Jesus na realização da ceia, cumpriu a Páscoa e os Pães da Proposição, mas que ainda hoje, a ceia está prefigurando o grande banquete que participaremos todos juntos nos novos céus e na nova terra. Maranata!


PEDRO FERNANDES