quarta-feira, 23 de setembro de 2015

DE QUEM DEVO SER PRÓXIMO?



Uma parte significativa do ministério de Jesus começa em um episódio que Lucas coloca pouco depois da tentação no deserto (Lc 4.1-15). Jesus sai da Galileia e volta para Nazaré e como o costume dos Judeus, a criança se torna adulta depois de completar 12 anos, e todo sábado é dia de frequentar a sinagoga (Lc 2.41-52).

Alguns estudiosos dizem que este fato se deu na sinagoga em que o Jairo era chefe, o explica aquele episódio em que sua filha seria ressuscitada e o que Jairo sabia sobre Jesus. A liturgia se dava assim: Os mais velhos sentavam nas cadeiras da frente, atrás os mais moços e no fundo as mulheres e crianças. O chefe da sinagoga se apresentava ao povo, cantava-se os hinos de Israel (provavelmente os salmos) e depois seria dada a oportunidade para a leitura da lei. Jesus sai do meio do povo, isto significa que ele estava sentado entre os mais moços, e segue em direção ao púlpito. Havia no púlpito três cadeiras, uma a direita, outra a esquerda e uma central. Esta cadeira central segundo a tradição era destinado ao messias:

“E, chegando a Nazaré, onde fora criado, entrou num dia de sábado, segundo o seu costume, na sinagoga, e levantou-se para ler.
E foi-lhe dado o livro do profeta Isaías; e, quando abriu o livro, achou o lugar em que estava escrito:
O Espírito do Senhor é sobre mim, Pois que me ungiu para evangelizar os pobres. Enviou-me a curar os quebrantados de coração,
A pregar liberdade aos cativos, E restauração da vista aos cegos, A pôr em liberdade os oprimidos, A anunciar o ano aceitável do Senhor.
E, cerrando o livro, e tornando-o a dar ao ministro, assentou-se; e os olhos de todos na sinagoga estavam fitos nele. Então começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos.
Lucas 4:16-21”

Jesus não somente afirma que a professia se cumpriu como se assenta na cadeira reservada ao messias e apavorou toda a multidão. A partir deste fato, os mestres da lei começam a perseguir Jesus e inquirir sobre a sua afirmação tão contundente.

A PROVAÇÃO DE JESUS

Depois de que o pecado entrou no mundo através do primeiro casal, viver passou a ser um “meio”, resolver o problema de comunhão com o Criador. Antes do pecado viver era um fim em si mesmo, porém a única questão que precisamos resolver agora é como resolver o problema de como resgatar a eternidade: comunhão com a Trindade. Temos no hoje a única oportunidade de resolver isso. Do que adianta “ganhar o mundo inteiro e ser condenado eternamente?” Do que adianta resolver as questões menos importantes e esquecer a única que realmente importa?

“E eis que se levantou um certo doutor da lei, tentando-o, e dizendo: Mestre, que farei para herdar a vida eterna? “E ele lhe disse: Que está escrito na lei? Como lês? E, respondendo ele, disse: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.
E disse-lhe: Respondeste bem; faze isso, e viverás.
Ele, porém, querendo justificar-se a si mesmo, disse a Jesus: E quem é o meu próximo?
E, respondendo Jesus, disse: Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos salteadores, os quais o despojaram, e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto.
E, ocasionalmente descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e, vendo-o, passou de largo.
E de igual modo também um levita, chegando àquele lugar, e, vendo-o, passou de largo.
Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão;
E, aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre o seu animal, levou-o para uma estalagem, e cuidou dele;
E, partindo no outro dia, tirou dois dinheiros, e deu-os ao hospedeiro, e disse-lhe: Cuida dele; e tudo o que de mais gastares eu to pagarei quando voltar. Qual, pois, destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores?
E ele disse: O que usou de misericórdia para com ele. Disse, pois, Jesus: Vai, e faze da mesma maneira. Lucas 10:25-37”

Aqui por mais uma oportunidade os mestres da lei continuaram a perseguição começada no capitulo 4 como já vimos, certo doutor da lei (provavelmente fariseu) veio a provar Jesus diante do povo.

A pergunta era perfeita teologicamente, mas o problema era sua intenção, “certamente não saberá me responder. Ele vai inventar”. Como este messias responderá esta questão tão central?

Jesus responde de maneira simples, mas brilhante: o que disse Moisés sobre este assunto? Você é mestre e deveria saber sobre isso.

A “INVENÇÃO” DO FARISEU

Sobre a réplica de Jesus o fariseu se esquiva e responde de pronto:

E, respondendo ele, disse: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.

Na verdade, se o fariseu esperava que Jesus inventasse o “feitiço virou contra o feiticeiro”. Moisés foi apenas até “todoas as tuas forças” e o próprio fariseu acrescentou por conta própria de todo seu entendimento.

Esta prática é bem própria do farisaísmo. Na tradição de Israel o centro da fé sempre foi o sacrifício. Após o retorno do exílio na babilônia, o centro mudou de sacrifício para o “guardar a lei”.

Podemos entender a Deus? Evidente que um ser finito não pode compreender o infinito. Entendemos no máximo a revelação de Deus, e somente com o auxílio do Santo Espirito. A lei pedia que agente matasse um animal se não agente morria. A lei não nos matava pois não podia ressuscitar. Por isso a gente ficava esperando o messias. Jesus resolveu isso. Ele morreu por nós, e morremos com ele no batismo, e ressuscitamos com ele.

Este fermento dos fariseus é fácil de ser percebido em nosso meio. Sempre queremos colocar um fardo tão pesado nas costas dos outros quanto nós mesmos não poderíamos carregar. Não são poucos os que quando se veem em situações complicadas, pedem socorro e mudam a perspectiva sobre a questão. Por isso aprendemos que o sofrimento é uma ótima ferramenta de santificação. Quando vemos um “neófito” praguejando contra os outros dizemos sempre em seguida: “este tem que apanhar demais ainda para aprender que a vida não é assim”.

O CONFRONTO SECRETO

Jesus dá uma resposta simples e inesperada pelo mestre da lei:

E disse-lhe: Respondeste bem; faze isso, e viverás.

Em seguida o mestre responde:

Ele, porém, querendo justificar-se a si mesmo, disse a Jesus: E quem é o meu próximo?

E nos perguntamos: “se justificar do que?” Jesus apenas concordou com o que o fariseu tinha dito e ele se sentiu agredido. Que poder maravilhoso. Que rebuliço interno causou as simples palavras de Jesus. O fato era que o “guardar a lei” como o mestre da lei pregava não o era possível. Ninguém entendia bem como eles conseguiam guardar toda lei. Os mestres não faziam sacrifícios por eles mesmo pois eram “guardadores da lei”. E o povo se perguntava: “como eles conseguem?” Jesus tinha a resposta: “HIPÓCRITAS!”

Esta palavra “hipócrita” é correspondente aos atores de teatro que usavam máscara para as cenas. Jesus queria dizer que eles não viviam o que pregavam. Viviam de aparências. Lavavam o exterior do copo para usar mas deixavam seu interior sujo o tornando impróprio para uso. Querer aparentar santidade é uma tentação em nossa vida, por isso a palavra central na fé Cristã é a GRAÇA!

DE QUEM EU DEVO SER PRÓXIMO?

O fariseu em situação ainda encontra força e pergunta:

E quem é o meu próximo? E, respondendo Jesus, disse: Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos salteadores, os quais o despojaram, e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto.
E, ocasionalmente descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e, vendo-o, passou de largo. E de igual modo também um levita, chegando àquele lugar, e, vendo-o, passou de largo.
Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão;
E, aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre o seu animal, levou-o para uma estalagem, e cuidou dele;
E, partindo no outro dia, tirou dois dinheiros, e deu-os ao hospedeiro, e disse-lhe: Cuida dele; e tudo o que de mais gastares eu to pagarei quando voltar. Qual, pois, destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores?
E ele disse: O que usou de misericórdia para com ele. Disse, pois, Jesus: Vai, e faze da mesma maneira. Lucas 10:25-37”

Para começo é importante pensar que talvez este relato não seja uma parábola mas um fato realmente acontecido e que escandalizou todo o povo. Não se contavam histórias comparando Judeus e Samaritanos pela rivalidade histórica entre eles.

Em outras palavras Jesus disse, você se lembra da história daquele “Bom Samaritano”?

Todos tiveram a oportunidade de ajudar mas não tiveram o “mover de íntima compaixão”.

Mudou o foco da pergunta, começou com a pergunta certa porém percebeu que o sentido estava errado. Os romanos chamavam que estava do meu lado no teatro de o “outro”, na fé cristã chamamos de “Próximo” o que dá uma mudança de perspectiva. E a parábola não somente me ensina quem é meu próximo, mas de quem eu devo ser próximo.
Começou com a pergunta: como se tem a vida eterna, e a reposta final não veio de Jesus, a parábola de Jesus foi tão forte que provocou uma resposta negativa do próprio mestre da lei, quem tem a vida eterna,

fica comovido de intima compaixão sempre pelos mais necessitados.


PEDRO FERNANDES